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Lasers ficaram tão potentes que estão exigindo lentes de gás

Materiais Avançados

Redação do Site Inovação Tecnológica – 22/09/2026

Lasers ficaram tão potentes que estão exigindo lentes de gás

Um pulso de laser XUV intenso interage de forma não-linear com um alvo de gás ressonante, criando uma lente dependente do tempo.
[Imagem: MPIK]

Lente de gás

Uma lente feita não de vidro ou cristal, mas de um gás, promete abrir caminho para um melhor controle dos pulsos de raios de luz de alta energia, para aplicações como direcionamento de reações químicas, computação quântica e métodos avançados de espectroscopia para ciência fundamental.

Há registros de lentes de vidro há quase três milênios, e desde então seu aprimoramento viabilizou invenções revolucionárias, como os telescópios e microscópios.

Contudo, com a invenção dos lasers e, posteriormente, dos pulsos de laser curtos e intensos, hoje contamos com luz de alta energia em intensidades extremas por períodos muito curtos, possibilitando opções de processamento de materiais mais precisas e abrindo novas perspectivas sobre processos microscópicos.

Acontece que aqui as lentes de vidro não funcionam mais, sendo necessárias novas ferramentas para moldar e manipular esses feixes. Embora os elementos ópticos convencionais – lentes, espelhos ou prismas, em sua maioria feitos de vidro – curvem, focalizem ou dividam espectralmente a luz visível com facilidade, os fótons de raios X e ultravioleta extrema, como suas elevadas energias, são fortemente absorvidos por esses componentes ópticos, em vez de serem refletidos ou refratados.

É aí que entra a nova ideia: Criar lentes usando gases.

Lasers ficaram tão potentes que estão exigindo lentes de gás

Vista da câmara de vácuo com a célula de gás que funciona como lente.
[Imagem: C. Ott/MPIK]

Transformar gás em elemento refrativo dinâmico

Uma colaboração internacional demonstrou pela primeira vez a capacidade de moldar um pulso de laser XUV, tanto espacialmente quanto em sua composição espectral, tirando proveito da complexa interação não-linear entre luz intensa e matéria.

Quando um pulso de laser XUV intenso atravessa um meio opticamente denso – como um gás atômico – ele excita e desexcita rapidamente os níveis de energia dos átomos. Esse processo dinâmico é conhecido como oscilação de Rabi, que consiste na rápida transferência de elétrons entre esses níveis quânticos.

Como um feixe de laser é naturalmente mais intenso em seu centro e mais fraco em direção às bordas, a intensidade dessa interação varia ao longo do perfil do feixe. A equipe demonstrou que essa variação radial de intensidade cria uma modificação autoinduzida do índice de refração do meio – o gás -, que é mais pronunciada em torno de uma frequência de ressonância atômica.

“A interação entre essa interação luz-matéria dependente da intensidade e os efeitos macroscópicos de propagação do pulso que ocorrem enquanto o pulso de laser viaja pelo meio transforma os átomos efetivamente em um elemento refrativo, como uma lente ou um prisma,” explicou o professor Yu He, do Instituto Max Planck de Física Nuclear, na Alemanha. “O alvo de gás deflete a luz ressonante – correspondente a uma transição eletrônica – de forma mais eficaz para a parte exterior do que outras frequências e, portanto, remodela seu espectro.”

Lasers ficaram tão potentes que estão exigindo lentes de gás

Alterações na estrutura do pulso e na composição espectral no campo distante em função da intensidade do pulso de laser.
[Imagem: MPIK]

Lente dependente do tempo

Dependendo da intensidade do pulso de laser original, os efeitos da lente de gás são diferentes: Em intensidades de laser mais baixas, a luz é absorvida na célula de gás ao redor da ressonância atômica, mas permanece inalterada em sua forma espacial.

Entretanto, com intensidades de laser e pressões de gás mais elevadas, o feixe é desviado de sua trajetória de propagação original, especialmente em duas energias de fótons específicas no espectro, ligeiramente abaixo e acima da energia de ressonância atômica. Isso resulta em uma estrutura característica de pico duplo no espectro, devido a efeitos não-lineares e efeitos macroscópicos de propagação do pulso.

“Com esse processo, conseguimos produzir uma lente dependente do tempo que pode ser usada para direcionar e moldar o feixe e sua composição espectral em escalas de tempo muito curtas,” disse o professor Thomas Pfeifer. “Isso não só ajudará no desenvolvimento de elementos ópticos para aplicações de luz de alta frequência, como também levará a uma compreensão mais detalhada dos processos complexos de como a radiação intensa interage e se propaga através de meios ressonantes.”

Esse conhecimento deverá abrir caminho para futuras técnicas espectroscópicas e viabilizar novas abordagens para ajustar a forma espacial e espectral de pulsos coerentes de raios XUV e raios X, inclusive para aplicações como o controle de reações químicas por luz estruturada e a computação ultrarrápida (quântica) em escalas de comprimento e tempo atômicas.

Bibliografia:

Artigo: Redirection and reshaping of intense extreme-ultraviolet radiation
Autores: Yu He, Alexander Magunia, Harijyoti Mandal, Muwaffaq Ali Mourtada, Carlo Kleine, Arikta Saha, Marc Rebholz, Gergana D. Borisova, Lina Hedewig, Hannes Lindenblatt, Florian Trost, Ulrike Frühling, Christina C. Papadopoulou, Elisa Appi, Stefan Düsterer, Tino Lang, Skirmantas Alisauskas, Christoph M. Heyl, Steffen Palutke, Markus Braune, Christina Bomer, Dietrich Krebs, Doriana Vinci, Philip Mosel, Peer Biesterfeld, Ingmar Hartl, Robert Moshammer, Milutin Kovacev, Kiyoshi Ueda, Mette B. Gaarde, Christian Ott, Thomas Pfeifer
Revista: Science Advances
DOI: 10.1126/sciadv.aef5300

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