Proposta de Donald Trump de chamar a inteligência artificial de “superinteligência” transforma o nome da tecnologia em uma promessa de superioridade e poder
Donald Trump propôs renomear a inteligência artificial. Realmente, o nome é muito ruim. Mas é apenas nisso que podemos concordar com o presidente dos Estados Unidos. Só para situar nossos ouvintes: no dia 19 de setembro, Trump sugeriu, em uma enquete, nomes como “superior”, “extrema” e “suprema” para a inteligência artificial. No dia 22, durante a Assembleia Geral da ONU, anunciou que documentos oficiais dos Estados Unidos passariam a usar a expressão “superintelligence”.
Renomear a inteligência artificial é também disputar os sentidos atribuídos à tecnologia. A proposta de Trump de chamá-la de “superinteligência” transforma o nome em uma promessa de superioridade. Superior a quem?
Na verdade, não é a primeira vez que esse tema aparece em suas manifestações. Trump retomou a ideia em diferentes ocasiões. Em agosto de 2025, ao anunciar uma política nacional para a inteligência artificial, afirmou que os Estados Unidos deveriam liderar o desenvolvimento de sistemas cada vez mais avançados e mencionou a possibilidade de uma inteligência “superior” à humana. Em dezembro do mesmo ano, voltou ao tema ao defender que a inteligência artificial desenvolvida nos Estados Unidos não deveria ser limitada por regulações estaduais, e ao apresentar a competição tecnológica com a China como uma disputa pela liderança global.
Mais recentemente, suas declarações e políticas continuaram a associar a inteligência artificial à corrida geopolítica, à soberania tecnológica e à promessa de supremacia norte-americana.
Essas manifestações não são apenas comentários sobre o futuro da tecnologia. Elas ajudam a construir uma linguagem política para a inteligência artificial: uma linguagem de liderança, competição e superioridade. Ao falar em “superinteligência”, Trump não descreve somente uma capacidade técnica; ele projeta uma hierarquia, define adversários e transforma o desenvolvimento tecnológico em instrumento de poder.
Nosso livro, Tecnologias da Invenção, parte de outra direção. Um dos seus argumentos é que a inteligência artificial não deve ser compreendida apenas como uma inteligência autônoma ou maquínica, mas como uma tecnologia produzida por redes de trabalho humano, infraestrutura, dados, energia, linguagem e decisão.
Uma leitura dos termos em chinês e japonês, discutida por Shuang L. Frost, coloca em primeiro plano a ideia de “inteligência feita pelo trabalho humano”. Olha que interessante. No ensaio Translating Chinese AI, Frost explica que a expressão “inteligência artificial” não corresponde exatamente à forma como o conceito é construído em chinês e apresenta uma formulação que enfatiza a ideia de uma inteligência produzida pelo trabalho humano.
Essa formulação indica que a inteligência artificial não é apenas algo que as máquinas fazem, mas algo produzido por pessoas, relações de trabalho e infraestruturas materiais. O próprio nome “inteligência artificial” pode ocultar esse processo ao sugerir autonomia, origem não humana e neutralidade técnica.
Essa concepção se aproxima de outras formas de pensar a IA: como trabalho coletivo e muitas vezes invisibilizado; como sistema sociotécnico; como dispositivo de classificação e governo; e como infraestrutura material dependente de minerais, servidores, energia e cadeias globais de produção. Em vez de perguntar apenas quando as máquinas superarão os humanos, essas perspectivas perguntam quem constrói esses sistemas, em que condições e para quais finalidades.
Reconhecer essa produção humana implica também reconhecer as dinâmicas de poder envolvidas. Quem fornece os dados? Quem define os objetivos? Quem controla a infraestrutura? Quem realiza o trabalho de anotação, moderação e manutenção? Quem recebe os benefícios? E quem arca com os custos sociais, ambientais e políticos?
As políticas da inteligência artificial começam também no seu nome.
Ouvir Imagens
Com a Profª. Giselle Beiguelman
A coluna Ouvir Imagens, com a professora Giselle Beiguelman, vai ao ar quinzenalmente, segunda-feira às 8h, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9), com produção da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP







