NESTA EDIÇÃO. PNE 2055 mostra que a transição energética brasileira exigirá mais do que a expansão de fontes renováveis: será preciso ampliar redes, infraestrutura e capacidade industrial.
Ao mesmo tempo, o país terá de lidar com a permanência de petróleo e gás em um sistema cada vez mais eletrificado.
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Aprovado e publicado nesta quarta (30/9) o Plano Nacional de Energia (PNE) 2055 projeta aumento de 1,6 a 2 vezes na demanda total de energia brasileira em 30 anos, enquanto o consumo por eletricidade pode crescer quatro vezes com a expansão da frota de veículos elétricos, data centers e produção de hidrogênio.
Para dar conta desses cenários, o país precisará investir em geração e, principalmente, infraestrutura de transmissão e distribuição.
Nos últimos anos, o grande desafio da transição brasileira começou a deixar de ser quanto o país consegue gerar e passou a ser quanto consegue entregar e com que grau de confiabilidade.
Elaborado pelo Ministério de Minas e Energia (MME) e Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o PNE 2055 (.pdf) traça três cenários para o futuro energético do Brasil e aponta que a oferta pode dobrar até 2055, enquanto a participação das fontes renováveis pode superar 80% da matriz energética nacional.
Segundo o documento, a infraestrutura de transmissão será um elemento estratégico para viabilizar a transição energética. A expectativa é triplicar a extensão de linhas e capacidade de transformação no período.
“O crescimento do sistema de transmissão pode ser impulsionado tanto pela expansão das interligações regionais – especialmente com a Região Nordeste – quanto pelo reforço das redes locais, que tendem a ser fundamentais para garantir a segurança operativa e a integração regional”, apontam MME e EPE.
São projetados até R$ 2 trilhões em investimentos na expansão da matriz até 2055, sendo cerca de R$ 600 bilhões relacionados à transmissão.
Além da ampliação da capacidade instalada, o planejamento observa que será necessário inserir novas tecnologias de transmissão e de soluções de armazenamento, de modo a fortalecer a confiabilidade, resiliência e controlabilidade da rede diante da crescente expansão da geração eólica e solar.
O PNE calcula que a extensão das linhas de transmissão pode aumentar entre 180 mil km e 390 mil km, levando o Sistema Interligado Nacional (SIN) a atingir dimensões equivalentes a duas a três vezes as atuais.
Já a capacidade de transformação pode crescer entre 330 GVA e 800 GVA, elevando a capacidade total instalada do SIN para um patamar entre 1,7 e 2,7 vezes superior ao de 2025.
Transição energética também é política industrial
Mas o que o Brasil pretende fazer com a vantagem de ter uma das matrizes energéticas mais renováveis do mundo?
Segundo o PNE 2055, a transição pode ser parte de uma transformação econômica e industrial, indo muito além de uma mudança na matriz, e viabilizar a neoindustrialização defendida pelo governo nos últimos anos.
A visão é que a diversidade de recursos energéticos representa uma vantagem para o Brasil competir nas cadeias globais.
A lista vai desde a bioenergia até os minerais críticos e terras raras, passando por hidrogênio e produtos de maior valor agregado com um prêmio verde.
“Nos cenários quantificados, a economia brasileira cresce, em média, entre 2,5% a.a. e 3,8% a.a. até 2055. O maior dinamismo econômico é impulsionado por uma mudança estrutural da economia, com ampliação da participação de setores de maior valor agregado e pelo aproveitamento das vantagens comparativas do Brasil na transição energética”, diz o documento.
“Nesse contexto, a indústria apresenta expansão mais intensa, impulsionada pela política de neoindustrialização, cujos efeitos se refletem em toda a economia. A transição energética também se consolida como vetor para a transformação socioeconômica, contribuindo para a redução das desigualdades e para o aumento do consumo das famílias”, continua.
Só no caso da bioenergia, o planejamento enxerga um potencial de investimentos de aproximadamente R$ 300 bilhões até 2055, contribuindo inclusive para a redução dos custos de tecnologias de captura e armazenamento de carbono (CCS).
Os investimentos em CCS na produção de etanol, biocombustíveis avançados e biometano (BECCS) podem alcançar cerca de R$ 40 bilhões no longo prazo.
Mas o PNE também chama atenção para um risco: a dependência produtiva e tecnológica das cadeias necessárias à transição está entre as incertezas no horizonte até 2055. Ou seja, ter recursos naturais não garante, por si só, que o país ocupará posições estratégicas nas cadeias industriais que surgirão com a descarbonização.
Petróleo perde espaço, mas não desaparece
É nesse ponto que o petróleo entra novamente na história. Nos cenários até 2055, os derivados de petróleo perdem participação expressiva na oferta final de energia: de cerca de 40% atualmente para menos de 10%, no mais ambicioso.
Isso não significa, porém, que petróleo e gás simplesmente deixam de fazer parte do planejamento energético brasileiro. O próprio plano trabalha com incertezas relacionadas às novas fronteiras de exploração de óleo e gás e reconhece a importância da segurança energética em um cenário internacional mais complexo.
De acordo com o PNE — que subsidiou o Plano Nacional de Transição Energética (Plante) —, a produção nacional de petróleo pode atingir pico de 5,3 milhões b/d em 2030 e alcançar, no longo prazo, níveis inferiores aos de 2025, refletindo a “redução gradual do papel dos combustíveis fósseis sem prejuízo à segurança energética nacional”.
Mas o documento segue apostando no gás natural: “Embora a demanda por petróleo possa declinar, a demanda por gás natural tende a crescer”, pontua.
“A indústria de óleo e gás desempenha papel estratégico no desenvolvimento econômico do País. No comércio internacional, o óleo brasileiro apresenta condições para manter elevada competitividade, combinando custos eficientes de produção com baixa intensidade de carbono nas atividades de exploração e produção”, completa.
O argumento também se apoia nas receitas geradas pelo setor, que podem ser convertidas em “instrumento de financiamento da transição energética”.
Cobrimos por aqui
Curtas
Eleições 2026. O presidente Lula disse que, se reeleito, comprará uma distribuidora para atuar no controle dos preços dos combustíveis. Posso dizer para você, eu vou comprar uma distribuidora. Eu vou comprar outra vez”, afirmou durante entrevistas a criadores de conteúdo nesta quarta-feira (30/9).
Por falar em eleições, o ONS informou na terça (29/9) que terá operação especial nos dias de votação do primeiro e segundo turno das eleições de 2026, dias 4 e 25 de outubro, respectivamente.
Relação com os EUA. Os ministros Mauro Vieira (MRE) e Márcio Elias Rosa (MDIC) reuniram nesta quarta (30/9), em Milwaukee (EUA, com o representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), Jamieson Greer, em agenda paralela à Reunião de Ministros do Comércio do G20.
- De acordo com informações do MDIC, os ministros brasileiros reafirmaram a disposição do Brasil de avançar, por meio do diálogo e da negociação, na construção de soluções para os temas que afetam o comércio bilateral.
- O governo norte-americano deverá encaminhar, nas próximas semanas, um documento com uma proposta para o escopo dos trabalhos, contemplando questões tarifárias e não tarifárias. Também foi acordada a criação de um Grupo de Trabalho para discutir temas relacionados a um possível acordo.
Exercício militar na Amazônia. Cerca de 400 soldados dos Estados Unidos, Argentina, Chile e Peru realizaram treinamentos militares, pela primeira vez, na Amazônia peruana. Durante duas semanas, os exércitos desses países tiveram como objetivo preparar suas forças armadas para combates em locais de densa floresta.
- Mas, num comunicado emitido pelas autoridades norte-americanas, um elemento chamou a atenção: se preparar para a defesa do “Hemisfério Ocidental”. (ICL Notícias)
Cronograma de leilões. O MME planeja leilões anuais de reserva de capacidade (LRCAP) pelo menos até 2029, com a possibilidade de negociação de potência por meio de baterias, sistemas de armazenamento hidráulico (usinas reversíveis), hidrelétricas e termelétricas, inclusive a biometano, biogás, biocombustíveis e resíduos.
- A pasta publicou, em edição extra do Diário Oficial da União de terça-feira (29/09), o calendário estimado dos leilões do setor elétrico para o período de 2027 a 2029. Confira o cronograma
Programa de combustíveis sustentáveis. A disponibilidade de etanol e biodiesel para abastecer embarcações reforça a urgência de uma política nacional para combustíveis sustentáveis de navegação, avalia o MME.
- Durante workshop na terça (29/9), Lorena de Souza, diretora do Departamento de Biocombustíveis, disse que o governo trabalha em uma proposta legislativa, ainda sem texto final. O programa poderá ser instituído por uma lei própria ou por um projeto que altere a Lei do Combustível do Futuro.
Gás no Redata. O CEO da Elea Data Centers, Alessandro Lombardi, reconhece que o gás natural pode contribuir para o atendimento aos data centers beneficiados pelo Redata, sobretudo como fonte de reserva em situações de interrupção do fornecimento elétrico, embora prefira que os incentivos estivessem vinculados exclusivamente à energia renovável. Confira na entrevista à eixos
Autorregulação de IA nos EUA. Donald Trump anunciou acordo com donos de big techs de IA para uma autorregulação voluntária com previsão de mecanismos de segurança e controle em meio ao crescente temor da sociedade estadunidense em relação aos riscos da expansão da inteligência artificial. (Agência Brasil)
Apagões em SP. A diretoria da Aneel negou o pedido de reconsideração feito pela Enel São Paulo demandando perícia técnica externa dos eventos climáticos que levaram a apagões na região metropolitana de São Paulo nos últimos três anos. A agência indeferiu o pedido em agosto. A Enel recorreu, mas recebeu nova negativa na terça (29/9).
Eficiência energética. O BNDES anunciou nesta quarta (30/9) a reformulação do Programa de Garantia a Créditos para Eficiência Energética (FGEnergia), para zerar o custo de garantia até dezembro de 2027. O fundo voltado a MPMEs garante até R$ 10 milhões por cliente.
Eletrificação da frota. A cidade de São Paulo recebeu, nesta quarta-feira (30/9), mais 250 ônibus elétricos financiados pelo BNDES. Ao todo, o banco liberou R$ 2,485 bilhões, que permitiu a aquisição de 1.185 veículos.
De olho na seca. A Transpetro e a Petrobras realizam, desde a segunda quinzena de setembro, a Operação Codajás, que adota medidas preventivas para garantir o abastecimento de combustíveis na região Norte durante o período de seca dos rios.







