Paulo Artaxo aponta a transição energética global como a prioridade máxima do planeta para eliminar emissões no transporte e na economia e evitar um superaquecimento crítico

Cientistas afirmam que é provável que a Terra ultrapasse um limite crítico relacionado ao aquecimento global ainda nesta década, mas a boa notícia é que o novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), que trata de tecnologias limpas , pode estar se aproximando do ponto em que a energia renovável se tornará predominante. Essa transição permitirá que a humanidade se livre dos combustíveis fósseis em alguns setores e reduza significativamente as emissões de gases de efeito estufa, que causam o aquecimento global. O relatório destaca tecnologias como a energia renovável, carros elétricos e até mesmo a redução de desperdício de alimentos. Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da USP, que trabalha com física aplicada a problemas ambientais, atuando principalmente em mudanças climáticas globais e meio ambiente na Amazônia, explica a importância da transição energética e como ela pode ser feita.
“A tarefa mais importante que a humanidade tem que fazer hoje é o que chamamos de transição energética. Devemos deixar de utilizar combustíveis fósseis em todos os setores da economia e começar a utilizar fontes de geração de energia limpa, sem emissão de gases de efeito estufa. Isso inclui energia solar, energia eólica, eletrificação do setor de transportes. É um processo que todos os países devem iniciar e fazer essa transição energética o mais rápido possível para que a gente possa tentar limitar o aumento da temperatura em torno de 2ºC.”
As diversas tecnologias sustentáveis
Dentre as tecnologias que permitem a redução das emissões de gases do efeito estufa, destacam-se as fontes de energia renováveis, como a energia solar, que já é mais barata do que instalar novas usinas de carvão ou de gás natural. De acordo com a Agência Internacional de Energia, cerca de US$ 450 bilhões foram investidos em energias renováveis no ano de 2024 no mundo.
Outra tecnologia que tem ganhado mais espaço na economia mundial é a dos carros elétricos, que no ano de 2025 representou mais de um quarto das vendas globais de carros novos. Os veículos elétricos trazem efeitos positivos que vão além da redução da emissão de carbono, que incluem menores custos com combustíveis e a menor dependência do petróleo e do gás. O relatório também destaca a importância de reduzir o desperdício de alimentos para combater as mudanças climáticas. Segundo dados da ONU, os sistemas alimentares são responsáveis por cerca de 30% de todas as emissões de gases do efeito estufa no mundo, sendo que aproximadamente um terço de todos os alimentos produzidos são desperdiçados, podendo contribuir com até 10% das emissões.

O professor ressalta que o problema não é a falta de tecnologias, mas sim os interesses particulares de grandes indústrias, como, por exemplo, a petrolífera. “O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) em seu último relatório declarou que nós já temos todas as tecnologias necessárias para reduzir pela metade a emissão de gás de efeito estufa até 2030. Entretanto, embora a ciência deixe clara essa necessidade, a indústria de combustíveis fósseis faz todo o possível para continuar o processo de aquecimento global e de emissão de gás de efeito estufa para a atmosfera terrestre. “
Nesse contexto, Artaxo comenta: “É um dilema onde as empresas de petróleo, que são extremamente poderosas junto a muitos governos, acabam basicamente olhando somente para os seus particulares interesses e não para os interesses de 8 bilhões de seres humanos no nosso planeta. É uma questão que precisa de um novo sistema de governança para ser resolvido”.
Políticas públicas para combater as mudanças climáticas
O professor destaca a importância de intensificar a transição energética em território nacional. “O Brasil tem vantagens estratégicas extraordinárias na questão da transição energética. Nenhum outro país possui o potencial de geração de energia solar e eólica a preços muito baratos e sem emissão de gases de efeito estufa. Nós deveríamos estar aproveitando essa oportunidade de ouro que a gente tem e sermos uma potência na geração de energia eólica e solar, de baixo custo e sem emissões e, com isso, transformar o País em uma potência na geração de energia sustentável. Entretanto, o Brasil está muito longe de cumprir esse papel graças à pressão do lobby da indústria de combustíveis fósseis no País, isso tem que mudar se quisermos que nossos filhos e nossos netos tenham um clima minimamente sustentável.”
Artaxo reforça que o setor agropecuário também pode agravar a crise climática, sendo necessário introduzir tecnologias sustentáveis na área. “Nós temos que reduzir as nossas emissões de gases de efeito estufa no setor agropecuário. Isso é um importante componente da economia brasileira e das emissões de gases de efeito estufa e, nesse sentido, o Brasil já se comprometeu a zerar o desmatamento da floresta amazônica até 2030, é uma tarefa absolutamente essencial. Todo o setor agropecuário precisa se transformar num setor de baixas emissões de carbono. A Embrapa já tem tecnologias muito eficientes para redução de emissões e temos que reduzir as emissões na produção de carne, já que o Brasil é um dos maiores produtores mundiais de carne e, portanto, é um setor que tem altíssimas emissões. Desenvolver uma agropecuária que seja minimamente sustentável é estratégico para o nosso país”, completa.

“Outro setor importante é o de transportes, no qual cerca de 30% das emissões globais de gás de efeito estufa estão associadas com o setor de transporte, que inclui caminhões, ônibus, automóveis, aviões, navios e assim por diante. No caso da eletrificação de veículos leves, essa questão já está praticamente resolvida, onde temos uma eletrificação que está sendo bastante rápida no Brasil, com a adoção de carros elétricos, que inclusive tem um custo de operação e de manutenção muito menor do que os carros que queimam gasolina e diesel. Essa transição já está ocorrendo e deve se intensificar nas próximas décadas, o desafio é eletrificar o transporte de caminhões, que no Brasil também é muito importante, o transporte aéreo e o transporte marítimo. Estamos indo, mas não com a velocidade necessária para impedirmos um clima muito inóspito já nas próximas décadas para a nossa população”, finaliza Artaxo.






