Porto Alegre (RS), 20/05/2024 – CHUVAS RS – ESCOLAS – Metade dos alunos da rede municipal de ensino retornam às aulas em Porto Alegre. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
Pesquisa nacional aponta valorização da educação, preocupação com a qualidade do ensino e cobrança por resultados dos governos. Especialistas defendem atuação do ISP baseada em evidências, colaboração e fortalecimento das redes públicas
A educação é reconhecida pela população brasileira como um caminho para transformar vidas e promover o desenvolvimento do país, mas a percepção sobre a qualidade do ensino público revela desafios. É o que mostra a pesquisa “O que a População Pensa Sobre a Educação“, realizada com 20 mil pessoas com mais de 16 anos, entre maio e julho de 2026.
Segundo o levantamento, 61% concordam totalmente que a educação é um fator importante para mudar de vida, enquanto 59% consideram necessário melhorar a qualidade da educação pública para que o Brasil seja um país melhor. Ao mesmo tempo, apenas 45% avaliam como ótima ou boa a qualidade das escolas públicas de seu estado.
Essa valorização também se traduz em prioridades concretas. Melhorar os salários e as condições de trabalho dos professores aparece em primeiro lugar, com 53% das respostas. Em seguida estão a ampliação dos cursos técnicos para jovens do ensino médio (48%) e a garantia de que todas as crianças aprendam a ler e escrever até os 8 anos (47%).
Para Ana Maria Cardoso, coordenadora do Observatório Fundação Itaú, os resultados mostram a importância de relacionar a percepção da população aindicadores educacionais e avaliações de políticas públicas. “A população aponta onde enxerga problemas e prioridades, e cabe aos diferentes atores, do setor público ao investimento social privado, contribuir para transformar essas prioridades em políticas qualificadas, monitoradas e sustentáveis.”
Nesse processo, o Investimento Social Privado (ISP) pode contribuir com a produção e disseminação de conhecimento baseado em evidências, além de aproximar pesquisa e implementação.
A valorização docente, principal prioridade apontada pelos entrevistados, também exige uma abordagem ampla. Além de remuneração e condições de trabalho, envolve formação inicial e continuada, reconhecimento profissional e apoio às práticas pedagógicas. Ana Maria ressalta que mudanças estruturais na carreira dependem de políticas públicas e da gestão das redes, enquanto o ISP pode colaborar com conhecimento, formação e apoio técnico.
Ensino integral e equidade
A pesquisa também identificou o reconhecimento dos benefícios da educação em tempo integral. Entre quem conhece a política, 52% afirmam que matriculariam ou já têm filhos matriculados nesse modelo, ante 33% entre aqueles que não conhecem. Além disso, 57% acreditam que o ensino integral prepara melhor os jovens para o ensino superior, e 55% para o mercado de trabalho.
Para Iara Viana, gerente de Políticas Públicas de Ensino Médio do Instituto Natura, a expansão precisa ser orientada por critérios de equidade, garantindo que estudantes que enfrentam maiores desigualdades tenham acesso não apenas a uma jornada ampliada, mas a uma experiência educativa de qualidade.
A gestora cita dados do Ideb 2025, segundo os quais 77 das 100 escolas de ensino médio de menor nível socioeconômico entre as que apresentam melhor desempenho são de tempo integral. Iara Viana defende que a expansão seja orientada pela equidade e acompanhada de investimentos que garantam qualidade e oportunidades aos estudantes em situação de maior vulnerabilidade . “O tempo adicional precisa se traduzir em aprendizagem, proteção, desenvolvimento e perspectivas de futuro”, aponta.
Iara destaca que a construção de parcerias exige objetivos comuns, articulação entre atores, uso de evidências e visão de longo prazo. “O papel do investimento social privado não é substituir o Estado, mas ajudar a criar as condições para que boas políticas públicas sejam mais efetivas e alcancem mais estudantes”, afirma Iara.
Da agenda à implementação
A cobrança por resultados também aparece na relação da população com os governos. Na pesquisa, 71% afirmam que a atuação do governo na área influencia seu voto, e 83% defendem que a educação esteja entre as três prioridades dos governadores nos próximos quatro anos.
Para Ricardo Henriques, superintendente executivo do Instituto Unibanco, os dados demonstram que a população acompanha a capacidade dos governos de entregar resultados. O desafio, avalia, está em transformar políticas em ações efetivas nas escolas, com coordenação, monitoramento e correção de rotas.
Ricardo Henriques defende que o ISP avance de iniciativas isoladas para uma atuação sistêmica, construída com as redes públicas e voltada ao seu fortalecimento.. “Não basta produzir boas soluções; é preciso contribuir para que as redes públicas tenham capacidade de incorporá-las, sustentá-las e aprimorá-las ao longo do tempo”, declara.
A dimensão do setor reforça a relevância desse debate. O Censo GIFE 2024–2025 aponta que as organizações participantes mobilizaram R$ 5,8 bilhões em 2024, e que 67% apoiavam iniciativas na área da educação. Os dados se referem às organizações respondentes do levantamento e ajudam a dimensionar a presença do tema no campo do ISP.
Para Ricardo Henriques, a contribuição do ISP passa por conectar evidências, colaboração e capacidade de implementação. “O papel do campo pode ser justamente ajudar a conectar ambição, evidência e capacidade de implementação, contribuindo para que boas políticas se consolidem como políticas de Estado”, afirma.






