Faculdade inaugura sala de realidade virtual rara no País, que permite estudar patologias e cirurgias em estruturas humanas digitalizadas. Revitalização de biblioteca e laboratório, além da criação do novo Instituto de Pesquisa Clínica no HC, também são novidades

Viajar pelo interior de um alvéolo pulmonar, observar de dentro as contrações de um coração humano em tamanho real ou dissecar repetidas vezes diferentes camadas de tecidos sem a limitação do uso de material biológico. O que antes parecia futurístico ou distante da sala de aula real passou a fazer parte da rotina de formação dos estudantes da Faculdade de Medicina (FM) da USP na última sexta-feira, 16 de outubro. A unidade inaugurou sua nova Sala de Ensino Virtual, espaço que reúne tecnologias de simulação tridimensional e realidade imersiva ainda raras nas escolas médicas brasileiras.
A entrega do ambiente tecnológico integrou um pacote de modernizações na infraestrutura acadêmica e científica do complexo de saúde da Universidade, em São Paulo. Na sede da faculdade, na Avenida Dr. Arnaldo, também foram abertos à comunidade o segundo andar reformado da Biblioteca Central e a nova intervenção artística do Laboratório de Anatomia. Já o Hospital das Clínicas (HC) apresentou as instalações do seu 11º instituto: o Instituto de Pesquisa Clínica (IPC), que está sendo erguido com a vocação de um polo nacional de desenvolvimento e validação de novos medicamentos, vacinas e terapias avançadas.
Simulação anatômica e imersão em 3D



No centro da nova Sala de Ensino Virtual da FM está uma mesa de simulação anatômica de alta definição, conectada a telões interativos e a dez óculos de realidade virtual tridimensional. Diferentemente de modelos gráficos genéricos, o software que abastece a mesa funciona a partir de um banco de dados construído com imagens de cadáveres reais doados para estudo, cujos tecidos e cortes milimétricos foram inteiramente digitalizados e catalogados.
Na prática, a ferramenta resolve um dos gargalos mais antigos do ensino médico: a limitação física e de disponibilidade de corpos reais para o treinamento dos alunos. Na mesa digital e nos óculos de imersão, docentes e estudantes de graduação da faculdade podem manipular estruturas anatômicas em escala real, simular intervenções cirúrgicas e carregar diferentes perfis de pacientes e patologias quantas vezes forem necessárias, sem risco ou perda de material.
“Aqui os estudantes poderão explorar estruturas, visualizar relações e exercitar conhecimentos com o apoio de ferramentas que enriquecem a aprendizagem e abrem novas possibilidades para os docentes. A experiência é tão realista que agora você pode literalmente entrar em um alvéolo ou em um coração pulsando. Quem vê comenta que dá até vontade de fazer medicina de novo”, contou a diretora da FM e presidente do Conselho Deliberativo do HC, Eloísa Silva Dutra de Oliveira Bonfá. “Nenhum país tem futuro se não fizer inovação e não avançar. Esta faculdade é o farol do Brasil para isso, e este espaço representa o nosso compromisso com a inovação e com a ciência.”


A evolução do espaço, que passou de uma configuração mais tradicional para um ambiente de alta tecnologia, foi destacada pelo vice-diretor da FM e diretor eleito para o próximo quadriênio, Paulo Manuel Pêgo Fernandes, especialmente pelo impacto direto no treinamento prático dos alunos do sexto ano de medicina. O projeto foi desenhado pela Comissão de Graduação da unidade, presidida por Iolanda Tibério, e viabilizado financeiramente por um edital do Programa de Apoio ao Aprimoramento do Ensino de Graduação, lançado pela Pró-Reitoria de Graduação (PRG) em 2024, somado a parcerias e doações que garantiram as licenças contínuas de uso dos softwares.
O reitor Aluisio Augusto Cotrim Segurado, que coincidentemente era quem estava à frente da PRG na época em que o programa de fomento foi criado, explicou como o investimento buscou atualizar os métodos pedagógicos da Universidade: “Temos mais de 250 cursos de graduação espalhados em 43 unidades de ensino e pesquisa em sete campi no Estado de São Paulo. Buscar o que havia de mais arrojado para modernizar o ensino exigiu um esforço conjunto e um investimento vultoso da Reitoria. Este espaço traz o ensino simulado de intervenções médicas, conferindo aos estudantes a oportunidade de vivenciarem experiências num ambiente controlado que espelha a multiplicidade de cenários da vida profissional futura. É a combinação da tradição do nosso legado com a inovação e o futuro”, afirmou.
O traço humano na anatomia e uma biblioteca em movimento
Se a tecnologia virtual amplia as fronteiras da simulação, o contato presencial com o estudo do corpo humano ganhou um ambiente mais acolhedor no prédio histórico da faculdade. O tradicional Laboratório de Anatomia passou por uma revitalização visual com uma série de ilustrações anatômicas pintadas diretamente nas paredes pelo artista plástico Canato, que realizou o trabalho de forma voluntária.
A proposta de unir arte e ciência buscou suavizar o impacto emocional comum aos calouros no início da graduação, como lembrou Eloísa Bonfá durante a abertura do espaço, coordenado pelo professor responsável pela disciplina de Topografia Estrutural Humana, Alfredo Luiz Jacomo: “O curso de anatomia, em geral, é assustador para quem começa Medicina. O estudante chega pensando no paciente e se depara com uma realidade difícil. Mas, aqui na faculdade, por muita inspiração do professor Jacomo e de sua equipe, tornou-se um curso adorado, cujo grande reflexo é a humanização. A precisão dos detalhes e o realismo das ilustrações do Canato revelam um olhar atento e uma paixão pelo corpo humano. São imagens que despertam a curiosidade e convidam à observação, uma capacidade essencial para quem estuda anatomia e se prepara para cuidar de pessoas”.
Diante da placa histórica do laboratório que homenageia o professor italiano Alfonso Bovero, que veio para o Brasil apenas dois anos após a fundação da faculdade para estruturar o departamento, o reitor Aluisio Segurado relembrou sua própria chegada à instituição como estudante. “Para mim é uma grande emoção: há 51 anos eu estava exatamente neste laboratório de anatomia iniciando meu curso de medicina, e poder voltar hoje numa outra condição é motivo de grande orgulho. Os tempos se transformam, novas tecnologias surgem, e a Faculdade de Medicina se orgulha do legado dos nossos pioneiros, mantendo o compromisso de formar as gerações futuras. Tradição e inovação podem andar lado a lado.”
Essa mesma lógica de adaptação às novas demandas estudantis guiou a reforma do segundo andar da Biblioteca Central da FM, iniciada no final de 2024 e também entregue na sexta-feira. A partir de uma consulta feita com os próprios alunos e pesquisadores, o projeto arquitetônico reorganizou o salão e renovou todo o mobiliário para equilibrar cabines de silêncio e concentração individual com salas preparadas para trabalhos em grupo e discussão colaborativa.
Para executar a obra sem interromper a rotina de estudos da faculdade, a equipe da biblioteca, acompanhada pela diretora executiva da FM, Anna Miethke Morais, e pela Agência de Bibliotecas e Coleções Digitais da USP (ABCD), presidida por Francisco Paletta, precisou montar uma complexa operação de bastidores, relatada pela chefe da Divisão de Biblioteca e Documentação, Daniela Amaral: “Essa modernização reflete o compromisso de acompanhar as transformações da Universidade e as necessidades da nossa comunidade. O remanejamento de mais de 300 mil volumes durante as obras dá uma ideia do tamanho do desafio que enfrentamos para realizar toda a reforma sem fechar um único dia o atendimento ao público. Esta é uma entrega parcial, que já abre caminho para levarmos esse mesmo padrão de renovação aos outros andares do prédio”.
O 11º instituto do HC e a soberania científica no SUS

Enquanto as entregas na faculdade reforçam a qualidade na formação de recursos humanos, a implantação das instalações do Instituto de Pesquisa Clínica (IPC) no complexo do Hospital das Clínicas mira a ponta final da cadeia científica: transformar descobertas de laboratório em tratamentos acessíveis à população. A pesquisa clínica é a etapa em que novos fármacos, vacinas, dispositivos médicos e terapias celulares são testados em seres humanos, sob rigorosos protocolos éticos e regulatórios, para comprovar sua segurança e eficácia antes do registro sanitário.
Com 6.700 metros quadrados de área construída e investimento estimado em R$ 53 milhões, o novo edifício entrará em plena operação a partir de 2027, conforme avança a captação de parcerias estratégicas para equipar seus andares. Quando estiver totalmente finalizado, o IPC reunirá 40 consultórios dedicados ao acompanhamento de voluntários, 16 leitos de observação, salas de procedimentos, estrutura própria de apoio diagnóstico e uma farmácia voltada exclusivamente a protocolos de investigação, além de áreas de biobanco para armazenamento seguro de amostras biológicas e setores de ciência de dados para análises estatísticas em larga escala.
Ao unificar em um único endereço o Escritório de Pesquisa Clínica, responsável pela gestão jurídica, orçamentária e regulatória, e o Centro de Pesquisa Clínica, onde os estudos são executados, o instituto busca evitar que descobertas promissoras fiquem pelo caminho por falta de suporte técnico. O prédio também abrigará uma Organização Acadêmica de Pesquisa e um Centro de Ciência para o Desenvolvimento apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
“Uma virada de chave importante é compreender que pesquisa clínica não é sinônimo apenas de pesquisa patrocinada pela indústria farmacêutica. Todos nós no HC fazemos pesquisa clínica, mas com este instituto ela vai a um patamar diferenciado”, explicou a professora titular do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da FM e coordenadora do Escritório e do Centro de Pesquisa Clínica Institucional, Rossana Pulcineli Vieira Francisco. “A nova estrutura nos permite contribuir tanto na inovação quanto no desenho metodológico de projetos acadêmicos, evitando que ideias científicas incríveis caiam no chamado ‘Vale da Morte’ e nunca cheguem até o paciente.”
A construção do edifício nasceu de uma parceria, firmada logo após a pandemia de covid-19, entre a Reitoria da USP e o Governo do Estado de São Paulo. Reitor da Universidade entre 2022 e 2025 e professor titular da FM, Carlos Gilberto Carlotti Junior lembrou que os hospitais universitários saíram da emergência sanitária fisicamente exauridos após sustentarem o atendimento de alta complexidade no Estado. Na ocasião, a USP propôs injetar recursos próprios de capital para expandir a infraestrutura dos complexos hospitalares, com a transferência de cerca de R$ 150 milhões para o HC de São Paulo, sendo R$ 50 milhões destinados diretamente ao IPC, e de R$ 67 milhões para o HC de Ribeirão Preto, sob a condição de que o governo estadual assumisse o custeio permanente das novas operações, numa proporção aproximada de R$ 3 estaduais para cada R$ 1 investido pela Universidade.
“Quando fomos decidir para onde iria esse recurso, a pesquisa clínica foi entendida como o grande diferencial estratégico, porque nenhum grande hospital do mundo deixa de ter um centro dedicado a isso. Ele dá qualidade ao próprio serviço assistencial, pois exige protocolo rigoroso, horário marcado e acompanhamento estrito do doente. Além disso, não podemos ficar atrelados apenas a descobertas de outros países. Temos capacidade de gerar conhecimento nacional, principalmente com terapia celular e derivados. Se não fizermos isso aqui, teremos que importar tecnologia a preços que o SUS não conseguirá pagar. Esta unidade é um grande desafio para trabalharmos com empresas nacionais e darmos ao paciente da rede pública acessibilidade financeira a tratamentos de ponta”, detalhou Carlotti.

Na visão de Eloísa Bonfá, concretizar este projeto é prova de que a persistência é necessária para viabilizar grandes ideias, mas o resultado é um impacto duradouro: “Hoje não estamos visitando apenas um novo prédio; celebramos a concretização de um sonho institucional. O HC é um dos maiores complexos hospitalares da América Latina e faltava uma estrutura dedicada, integrada e profissionalizada para transformar nosso potencial científico em estudos clínicos de grande alcance. As grandes conquistas exigem persistência e atravessam gestões. Que este instituto traga descobertas e esperança para milhares de pacientes do SUS”, disse.
O “instituto caçula” do sistema acadêmico FM-HC, na avaliação do reitor Aluisio Segurado, dá novo fôlego à liderança científica da Universidade no continente ao encurtar a distância entre a bancada de laboratório e o cuidado médico: “A pesquisa clínica possibilita traduzir os avanços da pesquisa biomédica fundamental em novas oportunidades concretas de intervenção em benefício do tratamento de doenças. A nossa Faculdade de Medicina sempre exerceu enorme protagonismo nesse campo e, com esta nova estrutura, fortalece sua posição em âmbito nacional e latino-americano. Presto aqui uma homenagem e um agradecimento especial aos voluntários e voluntárias da pesquisa clínica: pessoas que, altruisticamente, oferecem seus corpos e mentes para o avanço da ciência biomédica e para o bem da sociedade”.






