A transição para uma economia de baixo carbono tem colocado a indústria no centro do debate climático global. O carbono deixou de ser apenas uma externalidade ambiental para se tornar uma variável de acesso a mercado, formação de preços e alocação de capital.
Base da infraestrutura e das cadeias industriais, o aço ocupa lugar central nessa transformação, mas sua produção também está entre as atividades industriais mais desafiadoras de descarbonizar.
O Brasil é o nono maior produtor mundial de aço, com uma produção anual superior a 30 milhões de toneladas. Durante décadas, a competitividade do setor foi explicada principalmente pelo acesso ao minério de ferro, pelo custo da energia, pela escala das plantas e pela logística, fatores que continuam decisivos.
Uma nova variável, entretanto, passou a integrar essa equação: a quantidade de carbono incorporada em cada tonelada de aço e a capacidade de demonstrá-la por meio de dados confiáveis. Essa mudança já começa a aparecer nas regras do comércio, nas decisões de compra e na avaliação de investimentos.
Essa transformação ocorre em um momento particularmente delicado para a siderurgia. O setor enfrenta excesso de capacidade produtiva global, subsídios, tarifas e novas exigências regulatórias com efeitos comerciais.
O Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira da União Europeia (CBAM) e, no âmbito doméstico, o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) tornam a descarbonização uma questão cada vez mais ligada à competitividade.
A relevância desse novo ambiente para a siderurgia brasileira é evidente: os produtos de ferro e aço responderam por mais de 95% das exportações brasileiras para a União Europeia provenientes dos setores abrangidos pelo CBAM.
Apesar desse contexto desafiador, o Brasil parte de uma posição relativamente favorável. A matriz elétrica com alta participação de renováveis, o uso de sucata e a presença de rotas produtivas que incorporam biomassa e carvão vegetal oferecem condições diferenciadas para reduzir as emissões do aço.
O país também possui disponibilidade de minério de ferro, experiência industrial e potencial para expandir a produção de insumos energéticos de baixo carbono. Essas vantagens, contudo, não se convertem automaticamente em participação de mercado ou maior rentabilidade. Elas precisam ser mensuradas de forma comparável, reconhecidas por compradores e conectadas a uma estratégia de modernização industrial.
O estudo setorial de avaliação da transição climática do setor de Ferro & Aço (.pdf), realizado pelo Climate Finance Hub Brasil, ajuda a qualificar esse quadro. As sete empresas analisadas, que representam 85% da produção nacional, apresentam desempenho médio de maturidade da transição climática quase duas vezes superior ao observado entre companhias internacionais avaliadas pela mesma metodologia.
A comparação indica que a siderurgia brasileira parte de uma posição relativamente mais favorável, mesmo considerando os desafios intrínsecos a um setor hard-to-abate.
O estudo do CFH Brasil permite identificar onde esse diferencial já se manifesta e onde ainda precisa ser construído. Entre as empresas brasileiras, 86% desenvolvem iniciativas para ampliar o uso de energia de baixo carbono, 71% adotam ações de circularidade, reuso e reciclagem, e todas possuem estruturas formais de governança climática. Em 71% dos casos, metas de clima também estão vinculadas à remuneração variável dos gestores.
Embora esses avanços ainda precisem evoluir para estratégias de transição suficientemente robustas — 43% das empresas não possuem metas formais de redução de emissões — setor já dispõe de ativos importantes para a transição.
Trajetórias futuras de intensidade de carbono e divulgação de informações suficientes sobre investimentos em P&D e tecnologias de baixo carbono ainda precisam ser implementadas pelo setor para garantir planos de longo prazo, decisões de capital e mudanças estruturais nos processos produtivos.
Além dos esforços empregados pelas companhias do setor no Brasil para impulsionar a transição, é importante reconhecer que parte dos desafios decorre de fatores externos, como o alto custo do gás natural, que poderia viabilizar rotas de produção de menor intensidade de emissões, a limitação de infraestrutura, que restringe a adoção de algumas alternativas tecnológicas, a necessidade de criar demanda por produtos de baixo carbono.
Sem contratos de longo prazo, critérios de compras públicas e privadas, padrões confiáveis e instrumentos financeiros capazes de reduzir o custo de capital, projetos promissores não chegam à escala.
Como essas condições dependem de decisões de compradores, instituições financeiras e governos, avançar na transição exige uma base comum de informações capaz de orientar e coordenar a atuação desses agentes.
Organizar informações públicas de maneira estruturada e comparável, usando metodologias baseadas na ciência e internacionalmente aceita, as avaliações ajudam as companhias a reconhecerem seus diferenciais, identificar lacunas e desenvolver estratégias mais robustas.
Também oferecem evidências para apoiar a alocação de capital pelo setor financeiro, a formulação de políticas públicas e o acompanhamento da transição pela sociedade civil.
Em um ambiente marcado pela implementação do CBAM e do SBCE, essa base de evidências pode contribuir para aproximar estratégia empresarial, financiamento, inovação e criação de demanda.
O uso estratégico desses dados pode ajudar a transformar as vantagens produtivas do país em uma vantagem competitiva efetiva e posicionar o aço brasileiro entre as alternativas de menor emissão no mercado global.

Christianne Maroun é diretora-executiva do Climate Finance Hub.

Sofia Carra é diretora de Pesquisa do Climate Finance Hub.






