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Pesquisadores alertam para os riscos da inteligência artificial no futuro do software

Maior edição do Congresso Brasileiro de Software reuniu, de 8 a 11 de setembro, cerca de 900 participantes no Instituto de Matemática, Estatística e Ciência da Computação da USP para discutir os desafios de uma área em transformação

Pessoas sentadas num auditório ouvindo uma palestrante falar no palco ao fundo
Edição do CBSoft foi a primeira na USP – Foto: Dyovana Santos/IME

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Pesquisadores, estudantes e profissionais de diferentes partes do Brasil e do exterior se encontraram na USP, entre os dias 8 e 11 de setembro, para discutir os caminhos da pesquisa e do desenvolvimento de software. Realizado no Instituto de Matemática, Estatística e Ciência da Computação (IME), no campus do Butantã, o Congresso Brasileiro de Software: Teoria e Prática (CBSoft’26) reuniu cerca de 900 participantes, representantes de 25 Estados brasileiros, pesquisadores estrangeiros e profissionais de empresas de tecnologia. Segundo a organização, foi a maior edição do evento, que contou com mais de 370 artigos científicos apresentados. Entre sessões técnicas e discussões sobre diferentes temas ligados ao desenvolvimento de software, a inteligência artificial ganhou destaque na programação.

“A inteligência artificial está impactando todos os aspectos da vida humana e também a produção de software e a engenharia de software. Ela tem influências positivas e negativas. Então, é muito importante que a comunidade esteja discutindo esses impactos de forma a tentar otimizar tais influências benéficas, lembrando sempre que a gente quer que o ser humano esteja no centro das coisas e não uma máquina”, destacou no evento Fábio Kon, professor do IME e um dos organizadores do CBSoft. Para ele, as transformações promovidas pela IA exigem que a própria comunidade científica acompanhe criticamente os impactos das novas tecnologias.

Roberto Marcondes Cesar Junior, diretor do IME, abordou as mudanças no papel dos profissionais de computação. Com ferramentas baseadas em grandes modelos de linguagem capazes de produzir trechos cada vez maiores de código, questões como qualidade, segurança, manutenção e responsabilidade passam a assumir novas dimensões. “Hoje em dia, o que acontece cada vez mais é que não são mais só programadores que estão programando; são inteligências artificiais, são agentes de IA que estão programando sob a batuta do programador. Então, o profissional está virando uma espécie de maestro que conduz essas inteligências artificiais para produzir o software”, explica.

Essas questões também estão conectadas a pesquisas em andamento no próprio instituto. Entre os exemplos citados pelo diretor estão projetos de inteligência artificial aplicada a dispositivos móveis e a cidades inteligentes, além das atividades do Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Inteligência Artificial para a Matemática e Aprendizagem Inovadora (CCD IAMAI), sediado no IME e dedicado ao desenvolvimento responsável de tecnologias para a educação.

Robôs do Centro de Excelência em IA (CEIA), da Universidade Federal de Goiás (UFG), circularam no evento |-Foto: Dyovana Santos/ IME

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Ponte entre universidade e indústria

A aproximação entre universidades e empresas também ganhou destaque no CBSoft’26. Representantes de companhias de tecnologia participaram de painéis e debates ao lado de pesquisadores e estudantes, trazendo para a discussão desafios concretos do desenvolvimento de software.

Para o professor Rodolfo Azevedo, do Instituto de Computação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), essa relação estabelece um ciclo de trocas: enquanto as universidades formam profissionais e desenvolvem novas pesquisas, o contato com as empresas permite conhecer problemas encontrados na prática e transformá-los, em parte, em novas questões científicas. “As empresas estarem junto com a gente faz com que consigamos entender um pouco quais são os problemas e os desafios que elas estão tratando e como podemos contribuir nessa direção. É um canal de duas vias: trazer os problemas, mas também mostrar as nossas soluções”, explica.

Para Benício Goulart, gerente de desenvolvimento de software da Motorola/Lenovo, a aproximação com o ambiente acadêmico permite às empresas acompanhar pesquisas de fronteira e, ao mesmo tempo, apresentar a pesquisadores e estudantes desafios encontrados no cotidiano da indústria. “É superimportante para a Motorola entender o que está acontecendo, o estado da arte, ter contato com a academia e com outras empresas e trazer os problemas que a gente sente na prática para poder discutir com alunos, pesquisadores e professores. O nosso objetivo é levar isso para dentro da indústria e aplicar”, afirma.

A Motorola mantém projetos de pesquisa em colaboração com grupos da USP, entre eles equipes do IME e do campus de São Carlos. Segundo Benício, essas parcerias ajudam empresas a incorporar inovação em um cotidiano normalmente concentrado na operação e na aplicação das tecnologias já disponíveis.

Roberto Di Cosmo, pesquisador italiano e fundador da Software Heritage – Foto: Dyovana Santos/IME

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Pesquisa brasileira em diálogo com o mundo

O CBSoft’26 também recebeu convidados internacionais, que apresentaram diferentes perspectivas sobre os rumos da engenharia de software. Em sua primeira participação no congresso, o pesquisador Roberto Di Cosmo, do Institut National de Recherche en Informatique et en Automatique (INRIA), da França, afirmou ter se impressionado com a dimensão da comunidade brasileira e com a aproximação entre universidades e empresas no País.

Segundo ele, essa proximidade permite que pesquisadores trabalhem sobre problemas concretos, enquanto a indústria pode se beneficiar dos resultados produzidos pela ciência. Criador da iniciativa Software Heritage, dedicada à coleta, preservação e compartilhamento de códigos-fonte disponíveis publicamente, Di Cosmo também discutiu durante o evento a importância desses acervos para áreas que vão da engenharia de software à cibersegurança e à inteligência artificial.

Para o professor Paulo Meirelles, do Departamento de Ciência da Computação do IME e coordenador do evento, a presença de pesquisadores estrangeiros também contribui para o desenvolvimento científico ao ampliar a troca entre diferentes grupos de pesquisa. “A ciência é formada em cima dessa troca entre os pares. Ter esse encontro presencial faz com que essa troca se potencialize. Com as apresentações de artigos, é possível dar feedback; parcerias científicas são formadas e, mesmo sendo um congresso brasileiro, é importante ter convidados internacionais para que a gente faça parte também da comunidade internacional”, afirma.

Rodas de conversa aproximaram palestrantes e plateia durante os quatro dias de evento – Foto: Dyovana Santos/IME

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De olho no futuro

A edição também criou uma ponte com estudantes do ensino médio oferecendo uma programação voltada a alunos dessa etapa de formação, permitindo que jovens apresentassem trabalhos, acompanhassem palestras e conversassem diretamente com pesquisadores e profissionais.

Um grupo de 15 estudantes do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), campus São Carlos, participou da programação acompanhado pelo professor Jorge Francisco Cutigi. Os alunos, do Curso Técnico em Informática para Internet, levaram trabalhos desenvolvidos em projetos de iniciação científica e projetos integradores. Para o professor, a experiência de vivenciar uma universidade do porte da USP e participar de um congresso científico nacional acrescenta uma nova dimensão à formação dos estudantes. “Tudo isso — a infraestrutura, a quantidade de cursos, o número de pessoas — é, sem dúvida, uma experiência que eles não vão esquecer. É um ambiente diferente do que a gente tem lá e uma vivência incrível”, afirma.

Entre os estudantes estava Grazielly Cardoso, aluna do segundo ano do ensino médio, que apresentou uma pesquisa comparando o desempenho de ferramentas de inteligência artificial generativa na resolução de exercícios de programação. Além dos resultados científicos, a visita ajudou a estudante a enxergar com maior clareza possibilidades para o próprio futuro. “Eu fiquei muito em dúvida se queria seguir na área de programação ou se queria ir para outra área. Acho que, com o evento, consegui realmente estabelecer as minhas metas. Programação é algo que quero seguir na minha vida e o congresso foi muito importante para isso”, conta.

Oportunidade para os estudantes

Criado em 2010 pela Sociedade Brasileira de Computação (SBC), o CBSoft foi sediado pela primeira vez na USP. A programação incluiu quatro dos principais simpósios brasileiros da área — o Simpósio Brasileiro de Engenharia de Software (SBES), o Simpósio Brasileiro de Linguagens de Programação (SBLP), o Simpósio Brasileiro de Componentes, Arquiteturas e Reutilização de Software (SBCARS) e o Simpósio Brasileiro de Teste de Software Sistemático e Automatizado (SAST) —, além de oito workshops temáticos e atividades paralelas.

“O CBSoft tem o papel de congregar essa comunidade e trazer oportunidades de ter palestras, painéis, diferentes trilhas, trilhas de pesquisa, trilhas da indústria, concursos de teses e dissertações e de trabalhos de iniciação científica. É um evento composto de várias atividades que oportunizam ao participante estar em contato com a ciência e com a engenharia de software do Brasil”, ressalta Thaís Vasconcelos Batista, presidente da SBC.

A realização do CBSoft integra uma agenda mais ampla de eventos científicos recebidos pelo instituto. Segundo Roberto Marcondes, o IME sedia cerca de um evento a cada duas semanas, o que torna encontros, congressos e conferências parte da rotina acadêmica. Para o diretor, esse movimento oferece aos estudantes do IME oportunidades que ultrapassam os limites das salas de aula: acompanhar palestras de especialistas internacionais, apresentar pesquisas, conhecer empresas, estabelecer contatos e observar de perto discussões que podem definir os rumos de sua futura profissão.

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*Texto adaptado de Guilherme Rosa, da Assessoria de Comunicação-IME

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