A Associação Paulista das Cerâmicas de Revestimento (Aspacer) avalia o primeiro Leilão de Gás Natural da União, realizado ontem (22) como uma vitória para os consumidores industriais e defende a continuidade dos certames para ampliar a oferta, estimular a concorrência e fortalecer as exportações. Para a entidade, a entrada da Pré-Sal Petróleo (PPSA) como ofertante representa um avanço na desconcentração do mercado, enquanto o acesso a preços mais competitivos é fundamental para reduzir custos e fortalecer a indústria cerâmica.
Em entrevista ao Petronotícias, o CEO da Aspacer, Luís Fernando Quilici, destaca que o gás natural chega a representar 35% do custo total de produção de um metro quadrado de cerâmica. Por isso, a redução do custo do insumo é essencial para ampliar a competitividade do setor. “Hoje, apenas 12% da produção é destinada ao mercado externo. Há 20 anos, exportávamos 30%. O planejamento estratégico setorial prevê justamente a retomada desse patamar de 30% nas exportações até 2030. Nesse contexto, o gás natural desempenha um papel crucial, pois os nossos principais concorrentes internacionais operam com preços de gás muito inferiores aos praticados no Brasil”, afirmou.
Qual é a avaliação da associação sobre essa iniciativa e o modelo do primeiro leilão desse tipo para levar mais gás para a indústria cerâmica?
De maneira muito objetiva, o setor cerâmico, assim como outros segmentos da indústria, tem trabalhado fortemente para encontrar alternativas de ampliação da oferta de gás. Isso pode ser feito de várias formas, pois não existe uma “bala de prata”. É necessário atuar em frentes diversas: elevar a produção nacional, diminuir a queima e a reinjeção, além de ampliar o fluxo de gás importado, especialmente da Bolívia e, mais recentemente, da Argentina. Essa ampliação de oferta é fundamental para gerar mais competição e, consequentemente, reduzir o preço final.
O gas release e a realização de leilões são ferramentas importantes que caminham na direção da desconcentração da presença do agente dominante, que é a Petrobras. Hoje é um momento para comemorar, pois praticamente inauguramos o ingresso da PPSA como ofertante de gás por meio de um leilão, o que vai totalmente ao encontro dos nossos anseios. Sob o ponto de vista técnico, por se tratar da primeira experiência desse tipo pela PPSA, não havia um histórico prévio para fins de comparação. No entanto, consideramos essa experiência uma vitória significativa e um instrumento crucial que precisa ter continuidade, com leilões permanentes de gás da União, da Argentina, da Bolívia e de outros produtores.
Para a indústria cerâmica, onde o gás chega a representar até 35% do custo total de produção de um metro quadrado — sendo o principal insumo do setor —, a redução desse custo é fundamental para aumentar a nossa competitividade, tanto no mercado interno quanto no externo.
O presidente da PPSA já sinalizou a realização de um próximo leilão em 2027. Como a associação avalia esse anúncio e a necessidade de previsibilidade para esses certames?
A expectativa é extremamente positiva. Essa é uma pauta e uma bandeira que os consumidores de gás já defendem há muito tempo. Ver essa iniciativa começar agora, com perspectivas claras de continuidade, mostra que estamos diante de um caminho sem volta.
Tivemos oito empresas do setor cerâmico entre as vencedoras do leilão. Qual é a sua avaliação geral sobre o comportamento e o apetite da indústria cerâmica nessa modalidade?
O comportamento da indústria cerâmica refletiu de maneira muito adequada o interesse do setor por um gás mais barato. Tivemos várias indústrias participando, e esse número só não foi maior devido a exigências específicas do edital que nem todas as empresas conseguiam atender.
O setor cerâmico consome no Brasil cerca de 3,33 milhões de metros cúbitos de gás por dia. Comparar o volume de 200 mil metros cúbicos diários arrematado no leilão com esse consumo total de 3,33 milhões dá a dimensão exata do potencial de avanço que ainda temos pela frente, à medida que colocarmos em operação os fornos que hoje se encontram ociosos.
O prêmio mínimo estabelecido para o setor cerâmico, na casa de 1,86 dólar, está bastante aderente às nossas margens operacionais. Esse valor estabelece um parâmetro limite do que o setor pode ofertar para obter um gás competitivo que permita manter e ampliar suas operações. Todos os lotes colocados no certame foram arrematados, e o fato de uma empresa ter adquirido um ou mais lotes está diretamente ligado à viabilidade econômica e ao planejamento estratégico de cada unidade industrial.
Qual é a expectativa da associação para o fechamento deste ano e o início do próximo no ambiente de negócios? Quais são os principais desafios do setor?
Temos a expectativa de uma melhora no ambiente de negócios para o próximo ano, visto que o ano atual tem se mostrado ainda mais desafiador do que o anterior. Atualmente, o Brasil está com uma média de aproximadamente 25% dos fornos cerâmicos parados — lembrando que o Estado de São Paulo responde por 65% da produção nacional. Precisamos promover a ocupação dessa infraestrutura produtiva por meio do reaquecimento da produção e da ampliação da utilização da cerâmica no mercado interno, processo para o qual o aquecimento da construção civil é indispensável, já que o setor cerâmico representa 6% do PIB da construção civil nacional.
Por outro lado, precisamos avançar expressivamente nas exportações. Hoje, apenas 12% da produção é destinada ao mercado externo. Há 20 anos, exportávamos 30%. O planejamento estratégico setorial prevê justamente a retomada desse patamar de 30% nas exportações até 2030. Nesse contexto, o gás natural desempenha um papel crucial, pois os nossos principais concorrentes internacionais operam com preços de gás muito inferiores aos praticados no Brasil.






