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Mesquitas podem ajudar a salvar vidas em terremotos

Foto: Mohammed Alim | Pexels

Uma estrutura presente no cotidiano de milhões de indonésios ganha uma nova função na prevenção de mortes durante terremotos: os alto-falantes das mesquitas. Tradicionalmente usados cinco vezes ao dia para transmitir a chamada para a oração, esses equipamentos também passam a ser considerados canais de disseminação de alertas de emergência. A iniciativa, desenvolvida por pesquisadores locais e japoneses, busca superar um dos principais desafios dos sistemas de alerta precoce, o de fazer com que a informação chegue à população de forma rápida e confiável, aproveitando uma infraestrutura já estabelecida e mantida pelas próprias comunidades.

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Com a maior população muçulmana do mundo, a Indonésia tem centenas de milhares de mesquitas, quase todas equipadas com sistemas de som que alcançam as áreas próximas. Um projeto-piloto, com duração prevista de cinco anos, testa a conexão desses equipamentos a sensores sísmicos capazes de detectar terremotos e acionar um alarme antes da chegada dos tremores. Algumas mesquitas já integram a rede. A proposta surgiu com o Dr. Inoue Hiroshi, do Instituto de Pesquisa de Prevenção de Desastres da Universidade de Kyoto, após estudos sobre terremotos devastadores que atingiram Sumatra há quase duas décadas. “Toda comunidade tem uma mesquita”, disse ele ao The Guardian. Para o pesquisador, aproveitar essa estrutura também resolve uma questão fundamental em sistemas de emergência, a manutenção. “A vantagem de um alto-falante em uma mesquita é que eles já existem e são bem conservados. Para qualquer infraestrutura de resposta a desastres, a manutenção é o grande desafio… mas o alto-falante da mesquita é mantido pela população.” Embora os celulares sejam amplamente utilizados para transmitir alertas, as redes de telefonia podem deixar de funcionar durante o evento. Os alto-falantes, por sua vez, são testados diariamente pelas próprias comunidades, cinco vezes ao dia, o que ajuda a identificar possíveis falhas.

Indonésia, mesquita
Foto: el jusuf | Pexels

O tempo disponível para reagir a um terremoto pode ser extremamente curto. Diferentemente dos tsunamis, que podem ser monitorados durante sua formação e permitir que as comunidades tenham minutos ou até horas para se preparar, as ondas sísmicas se propagam rapidamente pelo solo. A 50 quilômetros (31 milhas) do epicentro, por exemplo, o intervalo para agir pode ser de apenas cinco a dez segundos, segundo Andi Eka Sakya, pesquisador sênior da Agência Nacional de Pesquisa e Inovação da Indonésia e co-líder do projeto. O sistema ainda não transmite alertas à população, mas esse é o objetivo da equipe. 

Além de emitir os avisos, os pesquisadores precisam definir quais orientações podem ajudar a população a se proteger. No Japão, as recomendações oficiais são abaixar-se e buscar abrigo, inclusive debaixo de uma mesa, permanecendo dentro de casa até o fim do tremor. Essa conduta, porém, considera edifícios bem construídos, realidade diferente da de muitas regiões da Indonésia e de outros países em desenvolvimento, onde casas de alvenaria sem reforço podem desabar. Há registros de prédios de dois andares no país em que o pavimento térreo foi destruído, enquanto o superior permaneceu relativamente intacto. Nessas situações, sobreviventes correram para fora. “A reação das pessoas é escapar rapidamente”, diz Inoue. “Elas sabem como sobreviver.” Como as recomendações internacionais nem sempre levam em conta as características das construções locais, a equipe realiza simulações e experimentos com pessoas para desenvolver orientações mais adequadas. Instruções que desconsideram a maneira como os edifícios podem ruir também podem colocar vidas em risco.

A utilização de mesquitas para disseminar alertas de emergência avança em outros países. No Uzbequistão, o Ministério de Situações de Emergência anunciou neste ano um projeto-piloto para instalar dispositivos de alarme em 272 mesquitas. O objetivo é avisar os moradores sobre inundações, deslizamentos de terra e avalanches. Parceiro da iniciativa, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) ressaltou que as mesquitas “são tradicionalmente percebidas como instituições sociais de autoridade com influência significativa nas comunidades locais”. A presença dessas instituições no cotidiano e a confiança que inspiram podem facilitar a disseminação das mensagens, sobretudo em locais onde os moradores têm pouco contato com os canais oficiais de comunicação do governo.

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Na Indonésia, o projeto também prevê o uso de rádio, televisão e alto-falantes nas escolas para ampliar o alcance dos avisos. Esses meios funcionarão como recursos complementares de proteção, enquanto as mesquitas permanecerão no centro da estratégia. A proposta é aproveitar uma rede já consolidada, presente na rotina das comunidades e cuidada por seus próprios integrantes, em vez de construir uma infraestrutura inteiramente nova. Com a adaptação de equipamentos que já fazem parte da vida local, os pesquisadores esperam criar mais uma oportunidade para que a população receba o alerta e tenha tempo de reagir diante de um terremoto.

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