A transformação técnica e regulatória focada em desempenho e sustentabilidade desenha os rumos do mercado de estabilizantes térmicos para policloreto de vinila (PVC). Formulações livres de chumbo e cádmio são uma realidade, posicionando o setor no cenário global com maior competitividade.
Encabeçado pelo Instituto Brasileiro do PVC (IBPVC), o Acordo Voluntário, que estabeleceu o compromisso da indústria de não comercializar mais estabilizantes para PVC à base de chumbo e cádmio no mercado brasileiro, completou um ano em abril de 2026.
Neste período, ações avulsas de responsabilidade socioambiental foram consolidadas como parâmetros de conformidade para toda a cadeia e colocou a indústria nacional em consonância com rigorosas regulamentações ambientais como Registration, Evaluation, Authorisation and Restriction of Chemicals (Reach) e Restriction of Hazardous Substances (RoHS).
“Na prática, o acordo consolida um movimento que a cadeia do PVC vinha fazendo há bastante tempo: a substituição desses metais por alternativas tecnicamente seguras e já consolidadas, como os sistemas à base de cálcio-zinco”, afirma Claudia T. Tsukamoto, diretora executiva do IBPVC. Segundo ela, aliás, estes estabilizantes térmicos baseados em metais pesados hoje têm aplicação totalmente marginal na indústria. “Para o IBPVC, esse é um passo importante para reforçar o compromisso do setor com saúde, meio ambiente, inovação e sustentabilidade”, pontua.
Assinado por Akdeniz Chemson, Baerlocher, BBC, Inbra, Reagens Varteco e Sun Ace Brasil (empresas que juntas representam 95% do mercado), o documento aproxima a indústria nacional do cenário internacional no que se refere às questões de sustentabilidade.
“A substituição de metais pesados (como o chumbo e cádmio) por estabilizantes à base de cálcio e zinco no PVC alinha a indústria brasileira às rígidas normas ambientais globais,”, reforça o gerente técnico da BBC, Silnei Zinato.
Para ele, essa mudança elimina a toxicidade na cadeia produtiva e no descarte, superando barreiras técnicas de exportação. “O acordo moderniza o setor nacional, tornando-o ambientalmente seguro e altamente competitivo no mercado internacional”, acrescenta.
Neste cenário, a estabilização térmica sem chumbo e cádmio se firmou como importante aliada da indústria.
Zinato: acordo setorial eleva segurança e competitividade
“Como alternativa viável, destaca-se principalmente a tecnologia cálcio-zinco”, pontua Zinato. Segundo ele, o sistema oferece excelente sinergia química, ótima estabilidade térmica, segurança atóxica e retenção de cor inicial com o uso de estabilização.
Vanessa Rossi, coordenadora de marketing da Inbra, acrescenta que os sistemas de bário e zinco (Ba-Zn) também representam uma opção para o setor em diversas aplicações de PVC, especialmente diante da crescente demanda por soluções que entreguem desempenho, conformidade regulatória e menor impacto ambiental.
Este movimento, no entanto, não é uma novidade propriamente dita, pois vem de longa data. Houve um acordo voluntário em 2002 para substituir o chumbo por alternativas como o cálcio-zinco. Este foi o primeiro passo. Naquele momento, a substituição deste metal pesado teve foco principalmente em tubos e conexões, um segmento bastante relevante para o consumo de PVC.
“O acordo atual é mais amplo e tem um caráter de consolidação”, explica Tsukamoto. A diferença está no fato de que não se trata apenas de uma aplicação específica, mas da comercialização de estabilizantes à base de chumbo e cádmio no país pelas empresas signatárias. Ou seja, há mais abrangência e maturidade do processo. “O setor evoluiu, as tecnologias avançaram e agora foi possível formalizar um compromisso mais amplo”, reforça Tsukamoto.
Com o tempo, essa evolução foi se ampliando para outras aplicações. “Não foi uma mudança feita de uma hora para outra, mas sim a continuidade de uma trajetória técnica e responsável”, menciona Tsukamoto. O mercado entendeu que era necessário dar mais transparência e formalidade a uma mudança que já vinha acontecendo no setor, que culminou com o acordo documentado em 2024 e válido a partir de abril do ano seguinte.
Passado pouco mais de um ano desta iniciativa, o mercado já acompanha a melhor organização sobre o tema e passou a contar com mais previsibilidade. “O balanço é bastante positivo”, diz Tsukamoto. Segundo ela, é importante destacar também o trabalho feito pelas empresas signatárias junto aos seus clientes, especialmente no apoio técnico para “mudar a chave” e passar a utilizar alternativas livres de chumbo e cádmio.
Essa transição não aconteceu apenas com uma decisão institucional. A tratativa exigiu conversas, testes, ajustes de formulação, validações em processo e segurança de que o produto final continuará oferecendo o desempenho esperado. “O principal desafio tem sido a própria abrangência da cadeia do PVC, que envolve aplicações muito diferentes e perfis variados de transformadores”, menciona Tsukamoto.
Para Rossi, o acordo trouxe importantes avanços para o mercado, ao incentivar o desenvolvimento de soluções que combinam desempenho, qualidade e responsabilidade ambiental. “As empresas nacionais que aderiram a esse compromisso investiram em tecnologias e matérias-primas alinhadas aos mais elevados padrões de sustentabilidade e conformidade regulatória”, afirma.
Na prática, de acordo com Zinato, o documento trouxe a segurança jurídica e as metas unificadas necessárias para acelerar investimentos e garantir a isonomia do mercado de PVC no Brasil. “Oficializou e deu escala a tendências globais que empresas pioneiras, como a nossa, já testavam, transformando iniciativas isoladas de sustentabilidade em um padrão de conformidade para toda a cadeia do PVC”, afirma.
Este cenário, no entanto, não se desenha sozinho. Tsukamoto pontua a necessidade de um acompanhamento contínuo, a partir do qual a transição continue acontecendo com segurança, preservando o desempenho dos produtos e dando confiança ao mercado.
Por não se tratar de uma proibição regulatória conduzida por um órgão público específico, não há uma punição relacionada à falta de adesão. Por isso, segundo Tsukamoto, o que existe é uma mudança de expectativa em relação às boas práticas da cadeia.
“Isso não significa, porém, ausência de responsabilidade. Diversas aplicações de PVC já precisam atender a normas técnicas, exigências de clientes e requisitos de mercado”, explica Tsukamoto. Por exemplo, as regulamentações de tubos e conexões, perfis de esquadrias e forros de PVC já proíbem há muito tempo o uso de estabilizantes térmicos à base de chumbo, além das normas de brinquedos que também restringem formalmente uma série de substâncias e elementos na composição dos mesmos.
As alternativas disponíveis já são conhecidas, testadas e utilizadas em diferentes aplicações, com bom desempenho técnico.
Tsukamoto: PVC começou a banir uso de metais pesados em 2002
“Por isso, entendemos que a cadeia brasileira está preparada para avançar de forma definitiva para formulações livres de chumbo e cádmio”, afirma Tsukamoto. Esse movimento também ajuda a reforçar a imagem do PVC como um material versátil, durável, reciclável e compatível com uma agenda moderna de sustentabilidade.
Tsukamoto fala sobre a não adequação das indústrias às mudanças. “Quem não acompanha essa evolução pode acabar enfrentando pressões de clientes, do mercado e de requisitos técnicos ou ambientais cada vez mais presentes”, diz. Ela também pontua que as empresas signatárias contam com o apoio institucional do IBPVC.
Novos tempos para estabilizantes de PVC
Nos últimos anos, houve uma queda contínua e significativa no uso de estabilizantes à base de chumbo. Aliás, segundo Tsukamoto, esse consumo, que já havia se tornado bastante pontual, tende a ser encerrado no mercado nacional pelas empresas signatárias.
É importante ponderar, no entanto, que apesar de os associados não estarem mais comercializando estabilizantes à base de chumbo e cádmio no Brasil, ainda pode haver produtos importados que não estejam submetidos ao mesmo compromisso setorial.
“Enxergamos com preocupação o aumento da entrada de estabilizantes asiáticos, muitas vezes contendo metal pesado na sua composição, no Brasil”, menciona Tsukamoto.
Vanessa Rossi também observa que o mercado vem sendo impactado pela entrada de produtos importados, principalmente da Ásia.
“Eles muitas vezes ainda utilizam compostos à base de chumbo e cádmio em suas formulações”, afirma. Segundo ela, estes estabilizantes podem apresentar vantagens de custo no curto prazo, mas não seguem necessariamente os mesmos critérios ambientais, de segurança e de sustentabilidade adotados pelas empresas comprometidas com a eliminação desses metais pesados.
Esse cenário cria uma concorrência desigual para os fabricantes que investem em soluções mais sustentáveis e traz um desafio para toda a cadeia produtiva. Por isso, segundo Rossi, é fundamental que as empresas consumidoras de estabilizantes e de produtos para PVC avaliem não apenas o preço, mas também a origem, a composição e a conformidade ambiental dos insumos que utilizam. Ela ressalta que essa ação é essencial para garantir que os produtos finais atendam às expectativas do mercado e aos compromissos de sustentabilidade cada vez mais valorizados por clientes e consumidores.
De qualquer forma, a indústria evoluiu ao longo dos anos, com o avanço de opções sustentáveis e de alto desempenho. Segundo Tsukamoto, a substituição bem-sucedida do chumbo pelos compostos de cálcio-zinco demonstrou o quanto os fabricantes assim como os clientes estavam preparados e engajados para o momento.
O contexto atual coloca os sistemas cálcio-zinco como os mais utilizados no mercado. Atóxicos, eles podem ser empregados em brinquedos, embalagens de alimentos, fios e cabos, entre outros. Os estabilizantes de bário e zinco têm seu espaço em sistemas líquidos para PVC flexível, como laminados e lonas. O estanho (Sn), por sua vez, é bem visto para aplicações de PVC rígido de alta transparência e exigência mecânica, a exemplo dos perfis.
Para Zinato, o mercado de PVC vive um momento atípico. Enquanto o segmento flexível recua, o rígido mostra crescimento. Ele cita um desaquecimento geral do setor que quebra a tendência dos anos anteriores e dificulta a evolução da produtividade global. Apesar do ritmo lento da economia, o mercado de vinílicos e de pisos Luxury Vinyl Tile (LVT) – um revestimento de multicamadas feito à base de PVC e cargas minerais – avança a passos largos em uma transformação técnica e regulatória focada em desempenho e sustentabilidade.
Essa mudança se reflete na substituição de ftalatos por aditivos avançados, como plastificantes bio-based (a exemplo do óleo de soja epoxidado) e estabilizadores Ca-Zn, que asseguram estabilidade térmica sem migração de compostos. Zinato completa que, paralelamente, a engenharia de materiais enfrenta os desafios da economia circular, trabalhando na reestabilização do PVC reciclado pós-consumo para evitar perdas mecânicas e variações de lote, garantindo uma transição ecológica viável e competitiva.
Avanços
O mercado de PVC da América do Sul, em 2026, é estimado em 1,93 milhão de t, pela Mordor Intelligence. O índice sinaliza uma rota em evolução. No ano anterior, o setor registrou 1,87 milhão t e, para 2031, as projeções apontam para 2,26 milhões t. A justificativa passa invariavelmente pelos investimentos em redes de abastecimento de água e saneamento. No Brasil, aliás, o Marco Legal do Saneamento, de 2020 foi determinante para a composição deste cenário, devido à obrigatoriedade de acesso universal à água e cobertura quase total de esgoto até 2033.
De acordo com o mesmo levantamento, o mercado está sendo impulsionado pela mudança gradual para sistemas estabilizadores sem chumbo e também pelo aumento do consumo de PVC na construção, infraestrutura, isolamento elétrico e indústria automotiva. Os sistemas à base de cálcio representaram 40,78% de participação no PVC, da América do Sul, em 2025.
Pensando no mercado nacional, segundo Tsukamoto, em função da criticidade e importância dos estabilizantes térmicos no processamento do PVC, as empresas valorizam muito a assistência técnica no processo decisório de compra desses aditivos. Por essa razão, mesmo com a presença de produto importado, a fabricação local é de longe a mais relevante nesse segmento.
Tsukamoto conta que, atualmente, os estabilizantes têm evoluído para atender às novas demandas do mercado de PVC, como os “One-packs” mais efetivos, o uso de dosagem cada vez menor, a flexibilidade para diferentes aplicações de resina e a adaptação para o aumento do uso de plastificantes vegetais nas formulações.
No atual contexto, ela reforça que os fabricantes de estabilizantes vêm inovando continuamente no desenvolvimento de novas formulações e tecnologias, permitindo reduzir a dosagem desses aditivos sem comprometer sua eficiência. Essa evolução contribui para a produção de materiais cada vez mais sustentáveis, econômicos e com melhor desempenho.
“Também vale mencionar que novas tecnologias de transformação do PVC, como o PVC-O, só se tornam possíveis graças à inovação nas formulações de estabilizantes à base de cálcio/zinco e cálcio orgânico”, diz Tsukamoto. Segundo ela, os aditivos mais eficientes têm facilitado o uso do PVC em processos mais críticos, nos quais há maior exigência de estabilização. Em tempo: PVC-O é um material com propriedades mecânicas elevadas, utilizado em sistemas de abastecimento de água, irrigação, esgoto pressurizado, indústrias e infraestrutura.
Ainda sobre os avanços tecnológicos na estabilização do PVC, Zinato aponta a transição do sistema bário-zinco para cálcio-zinco nos processos de extrusão e calandragem. “Consolidou-se como uma excelente alternativa técnica”, afirma. Segundo ele, essa mudança assegura a manutenção da performance de processamento original, agregando um forte apelo de sustentabilidade ao produto final.
Neste contexto, a BBC abastece o setor com óleo de soja epoxidado, plastificante vegetal e aditivos estabilizantes à base de cálcio-zinco para compostos de PVC. Em seu portfólio, a linha Stavin se destaca por ser formada por estabilizantes de alto desempenho, customizados para cada necessidade, destinados principalmente para compostos de PVC flexível.
A Lubstab é outra linha importante da marca. Desenvolvida para atender ao mercado de PVC rígido, é formulada conforme a necessidade do cliente, oferecendo desempenho no processo e alta performance, de acordo com Zinato.
A Inbra destaca seus estabilizantes térmicos, sólidos e líquidos, à base de cálcio e zinco da linha Plastabil. Segundo Rossi, são aditivos desenvolvidos para oferecer alto desempenho com excelente custo-benefício. “Esses produtos se posicionam como alternativas eficientes às tecnologias tradicionais, garantindo estabilidade térmica sem comprometer a performance”, afirma.
O portfólio traz ainda a linha Markstab, composta por estabilizantes à base de bário e zinco. Eles foram desenvolvidos para proporcionar alto desempenho para processos de extrusão, injeção e calandragem, ideais para laminados, pisos vinílicos, mangueiras e utilidades domésticas.
“A tecnologia utilizada nas linhas apresenta como diferencial a alternativa aos metais pesados, tendência mundial do mercado de PVC”, diz Rossi.
Para ela, além disso, os produtos apresentam conformidade com aplicações sensíveis, excelente relação custo-benefício e compatibilidade com diversas formulações. Fundada em 1939, a empresa conta com duas plantas no Brasil e uma unidade nos Estados Unidos. “Apoiamos nossos clientes na transição para soluções mais modernas e alinhadas às demandas atuais do mercado”, finaliza.
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