Com curadoria do professor Tiganá Santana, a mostra apresenta ao público um conjunto de objetos, imagens, documentos, mapas e textos que fazem parte do acervo do instituto

O Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) inaugurou, no dia 23 de setembro, a Mostra Milton Santos, que homenageia o centenário de nascimento de um dos mais importantes geógrafos brasileiros.
Milton Almeida dos Santos (1926–2001) nasceu em Brotas de Macaúbas, na Bahia. Formou-se em Direito pela então Universidade da Bahia, em 1948, e construiu sua carreira principalmente como geógrafo, professor, pesquisador e jornalista. Em 1958, doutorou-se em Geografia pela Universidade de Estrasburgo, na França, sob orientação de Jean Tricart. Após o golpe militar de 1964, foi preso e, posteriormente, viveu 13 anos no exílio, período em que lecionou e pesquisou em diferentes países da Europa, América e África, incluindo França, Estados Unidos, Canadá, Peru, Venezuela, Tanzânia e Nigéria.
“Ele mudou completamente a forma de se trabalhar na Geografia e de se pensar na Geografia.”
Santos ingressou na USP em 1984, como professor do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), onde lecionou Geografia Humana até 1997. Naquele ano, recebeu o título de Professor Emérito da Faculdade. O professor ficou conhecido por suas pesquisas e publicações sobre as realidades geográficas locais e urbanização, principalmente nos países subdesenvolvidos, o que ajudou na reflexão sobre os rumos da humanidade com um viés socioeconômico e ambiental, sendo considerado como um dos principais estudiosos de sua área. A biblioteca de Milton Santos foi transferida para o IEB em 2010 e reúne aproximadamente quatro mil volumes.

Em 2017, o Conselho Universitário da USP aprovou, por unanimidade, a criação da Praça Milton Santos, na Cidade Universitária Armando de Salles Oliveira, em São Paulo. A Praça fica localizada próxima ao prédio do Inova USP, nas proximidades da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA), do Centro de Difusão Internacional (CDI) e do Instituto de Relações Internacionais (IRI).
Com curadoria do professor Tiganá Santana, a mostra apresenta ao público um conjunto de objetos, imagens, documentos, mapas e textos que permitem percorrer diferentes dimensões de sua vida, de seu pensamento e de seu legado. A curadoria foi desenvolvida com o apoio de estudantes da disciplina Práticas e Mediações Artísticas, ministrada por Santana no instituto.
A exposição reúne materiais do acervo de Milton Santos preservado no IEB, como fotografias, mapas, manuscritos, datiloscritos e registros de sua trajetória, alguns apresentados ao público pela primeira vez. Destaca suas viagens e pesquisas de campo no continente africano, além de sua relação com Salvador, outras cidades da Bahia e São Paulo, revelando diferentes dimensões das geografias vividas e pensadas pelo pesquisador. A exposição contará, também, com ativações, que serão divulgadas posteriormente.
“Trata-se de uma exposição bastante objetiva, enxuta, direta, simples, com espaço também para que as pessoas possam nela se reunir, para que haja ativações. São para pessoas que não conhecem tanto sobre Milton Santos, mas também para aquelas que têm uma relação com seu pensamento, com sua biografia”, explicou o curador da mostra.



A diretora do IEB, Luciana Suarez Galvão, destacou a importância de expor esse acervo, que está sob responsabilidade do instituto, para a sociedade. “É muito importante essa oportunidade de fazer a extroversão desse acervo, não só porque o instituto detém o acervo Milton Santos, mas também porque o professor Milton tinha uma mente inquieta. Considero importante deixarmos o acervo vivo, essa memória continuar inquieta, despertando questionamentos para todo mundo”, afirmou.
O pró-reitor de Cultura e Extensão Universitária, Amâncio Jorge de Oliveira, ressaltou que “a exposição parte também de uma formação, de um curso de mediação artística. Eu, como ex-diretor do Museu do Ipiranga, sei da importância da mediação, da pesquisa extrovertida e dessa combinação com a extensão. Portanto, essa mostra tem muitos significados além, evidentemente, da homenagem à grandeza de Milton Santos”.

A professora do Departamento de Geografia da FFLCH, Rosa Ester Rossini, que foi aluna e amiga pessoal de Santos, contou que o professor mudou a forma como “se pensava a Geografia. Ele conseguiu, ao chegar ao Departamento, inserir o espírito de que a Geografia é produto das relações entre a sociedade e o espaço. Ele mudou completamente a forma de se trabalhar na Geografia e de se pensar na Geografia”.
“No final da década de 1990, na Escola Politécnica, o professor Milton Santos estava em uma banca de livre-docência e a arguição dele foi de uma elegância intelectual e de um posicionamento frente à questão da urbanização, da globalização e do transporte público, que era quase um show, com aquele sorriso largo que ele tinha. Fiquei muito impactada. Considero que a Universidade traz para a gente sempre grandes oportunidades de alargar o conhecimento e se orgulhar pelos brasileiros que temos aqui e que fizeram e mudaram a história do País”, afirmou a vice-reitora da USP, Liedi Bernucci.
A mostra ficará em cartaz até o dia 3 de maio de 2027, na Sala de Mostras Temporárias do IEB, e está aberta para visitação de segunda a sexta-feira, das 9h às 19h. A entrada é gratuita. O IEB está localizado na Avenida Professor Luciano Gualberto, 78, na Cidade Universitária, em São Paulo.






