
Conectar de forma cada vez mais efetiva o conhecimento produzido nos laboratórios universitários às demandas da sociedade e transformar a ciência em benefícios diretos em áreas como saúde, sustentabilidade e geração de renda. Essa foi a tônica do seminário Inovação que Transforma, realizado no dia 27 de outubro, na sede da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado de São Paulo (SCTI), na capital paulista. O evento reuniu pesquisadores, gestores públicos, investidores e representantes do setor produtivo e da sociedade civil com o objetivo de mapear estratégias para impulsionar o desenvolvimento econômico e social do Estado por meio da chamada economia do conhecimento.
A iniciativa foi promovida pela SCTI em parceria com a USP, por meio do Projeto Jornada dos Ambientes Paulistas de Inovação (Japi), sediado na Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) e apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O encontro, que destacou o papel de estruturas como parques tecnológicos, incubadoras, aceleradoras e centros de pesquisa para aproximar a academia da sociedade, integrou a programação da 23ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT), mobilização anual coordenada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

“É um encontro de reflexão estratégica, que tem o privilégio de reunir os principais agentes diretamente associados à economia do conhecimento, incluindo universidades, instituições de ciência e tecnologia, o setor empresarial, instâncias governamentais e entes da sociedade civil organizada. Estou certo de que este evento proporcionará importantes debates e ajudará a traçar caminhos para impulsionar o desenvolvimento econômico e social do Estado de São Paulo, dentro de um esforço coletivo articulado para superar os desafios contemporâneos e promover o bem-estar humano inclusivo”, avaliou o reitor Aluisio Augusto Cotrim Segurado.

O secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado de São Paulo, Vahan Agopyan, destacou a consolidação do ecossistema tecnológico paulista e a importância do intercâmbio de práticas, inclusive com nações que priorizam o setor. “O Sistema Paulista de Ambientes de Inovação transformou-se neste lócus em que trocamos experiências, aprendemos boas práticas de trabalho, compartilhamos dificuldades e interagimos continuamente. Já contamos com 107 ambientes de inovação da iniciativa privada, com e sem fins lucrativos, espaços ligados às Prefeituras e organizações não governamentais dispostos a colaborar”, afirmou. “Algo muito relevante, quando olhamos para outras nações, é o papel do Estado na conversão da liderança acadêmica em soluções reais para a população, e nossas diretrizes são muito claras. São Paulo já figura entre os cem melhores centros de inovação do mundo e entre os 50 melhores ecossistemas para startups. Nosso desafio agora é avançar e dar o próximo passo”, projetou.

Para o diretor-presidente da Fapesp, Carlos Frederico de Oliveira Graeff, converter o investimento científico em melhorias diretas para a sociedade deve ser foco permanente, mas o caminho da ciência básica até os resultados concretos é desafiador. “A inovação se constrói a partir da ciência básica, área na qual a Fapesp investe mais de 50% de seus recursos. Para que tenhamos um ecossistema saudável, esse conhecimento precisa se transformar em bem-estar para a população, mas para que isso seja possível, precisamos mitigar as incertezas inerentes aos novos negócios. A questão do risco é crucial, pois chega um momento na trajetória do empreendedor em que o volume de capital exigido é alto e o recurso público, por si só, não é suficiente. Como atrair, então, o capital privado? Reduzindo o risco. Precisamos de todos os atores trabalhando de forma integrada, promovendo conexões, tarefa na qual os ambientes de inovação detêm um papel central”, concluiu.
Ciência aplicada à saúde, ao clima e à economia
Ao longo da programação, os debates abordaram como a articulação entre o setor público, o meio empresarial e as instituições de ciência e tecnologia (ICTs) pode responder a desafios contemporâneos. Na esfera social, o painel dedicado à saúde analisou de que maneira a pesquisa científica pode gerar tecnologias e serviços mais acessíveis para o atendimento da população. A discussão contou com a participação do pró-reitor adjunto de Inovação da USP, Norberto Peporine Lopes, e do diretor-geral executivo do Hospital Sírio-Libanês, Antonio José Pereira Rodrigues, sob mediação do coordenador do Sistema Paulista de Ambientes de Inovação e professor da FEA, Marcelo Caldeira Pedroso.
São Paulo já figura entre os cem melhores centros de inovação do mundo e entre os 50 melhores ecossistemas para startups
As abordagens contemporâneas para a preservação ambiental e a transição para uma economia sustentável foram debatidas pelo professor da FEA Ariaster Baumgratz Chimeli e pela superintendente de Gestão Ambiental da USP, Patrícia Iglecias, com mediação do coordenador científico do projeto Japi e professor da FEA e da Escola Politécnica (Poli) da USP, Guilherme Ary Plonski.
Já os mecanismos de financiamento para viabilizar novos negócios científicos e o desenvolvimento econômico foram discutidos pela professora da FEA Maria Dolores Montoya Diaz e por Graeff. O potencial das deeptechs, startups criadas a partir de descobertas científicas complexas e com elevada capacidade de impacto, também teve espaço em mesa que reuniu dirigentes de agências de fomento e gestoras de investimentos, sob mediação da assessora da SCTI Morganna Tito.
Outro ponto abordado no encontro foi a descentralização do desenvolvimento científico e tecnológico, observando como os municípios do interior e da capital podem estruturar iniciativas locais, distritos de inovação e marcos de incentivo para atrair investimentos e qualificar a mão de obra regional. A programação articulou gestores municipais de diferentes regiões paulistas para debater os desafios práticos na implementação desses espaços e na formulação de políticas públicas voltadas à área.
Projeto Japi

Durante as atividades, foram apresentadas atualizações sobre o mapeamento do ecossistema estadual conduzido pelo projeto Japi. Lançado em abril de 2025 e batizado em referência à Serra do Japi, patrimônio ambiental paulista, associando a identidade da iniciativa ao território e à sustentabilidade, o projeto busca avaliar o impacto real que os investimentos em ambientes de inovação geram para a sociedade.
O papel da iniciativa foi detalhado pelo diretor da FEA, João Maurício Gama Boaventura, que explicou como a elaboração de evidências científicas pode orientar, de forma mais eficaz, o poder público. “Nosso propósito vai além de mapear os ambientes existentes: o projeto procura desenvolver metodologias, indicadores e ferramentas capazes de ampliar o nosso conhecimento sobre esses espaços e subsidiar políticas públicas fundamentadas em evidências.”
Boaventura apresentou também algumas entregas recentes do grupo: “Até junho deste ano, o Japi já havia mapeado quase uma centena de ambientes de inovação e realizado mais de 30 entrevistas com seus gestores. A equipe também avançou na elaboração de um roteiro de avaliação estruturado em cinco dimensões: capital social, tecnológico, de infraestrutura, humano e financeiro. Esses avanços representam passos importantes para a construção de instrumentos que permitam conhecer melhor as capacidades, as atividades e os resultados dos ambientes de inovação”, ressaltou.
Dados consolidados pela pesquisa identificaram 97 ambientes de inovação no Estado de São Paulo, compostos de 32 centros de inovação, 27 incubadoras, 14 parques tecnológicos, 13 hubs e 11 estruturas de outros formatos. Para integrar e dar transparência a esse levantamento, a iniciativa desenvolve ainda uma plataforma digital pública, que atuará como observatório do ecossistema para apoiar a gestão governamental e otimizar a alocação de recursos públicos.
Além da USP, que sedia a coordenação científica na FEA, a rede de pesquisa do projeto reúne a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a Universidade Estadual Paulista (Unesp), a Universidade Federal de Viçosa (UFV), o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), o Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia (Cietec), o Instituto de Economia Agrícola (IEA) e a Rede Paulista de Ambientes de Inovação (Rede API).
Experiências internacionais destacam parceria entre governo, academia e setor privado

A primeira sessão de debates do seminário foi o painel Inovação e Conexões Globais, que reuniu representantes diplomáticos de países considerados referências mundiais na área para comentar as experiências e as realidades de seus ecossistemas. A discussão foi mediada pelo chefe da Assessoria Especial de Assuntos Internacionais do Estado de São Paulo, Samo Tosatti.
“Quando se têm recursos financeiros, é possível fazer mais pesquisa, mais desenvolvimento, mais tecnologia e, novamente, gerar cada vez mais inovação”
Conhecido mundialmente como a “nação das startups”, Israel investe cerca de 6,5% do seu Produto Interno Bruto (PIB) em pesquisa e desenvolvimento, um dos maiores índices globais. O país é berço de centenas de iniciativas tecnológicas, que incluem não apenas aplicativos amplamente conhecidos pelo grande público, como o Waze, mas também soluções de destaque nas áreas de cibersegurança e agricultura. A cônsul-geral de Israel em São Paulo, Vivian Giliad, explicou que a vocação inovadora local nasceu da necessidade urgente de uma nação sem recursos naturais e com 60% do território composto de áreas desérticas, o que exigiu o desenvolvimento de tecnologias próprias para superar a escassez hídrica e viabilizar a produção agrícola. Segundo a diplomata, o avanço tecnológico israelense apoia-se em uma forte cultura de resiliência, na qual fracassos empresariais são vistos pelo mercado como aprendizado valioso, e na cooperação entre três pilares: o governo, que assume o risco inicial financiando ideias embrionárias; a academia, com pesquisa de ponta; e o setor privado, que impulsiona os negócios. Ao apontar o desenvolvimento de pesquisas conjuntas com instituições paulistas em saúde, irrigação de precisão e proteção cibernética, Vivian ressaltou o impacto social do setor como um ciclo que se retroalimenta: “Quando se tem recursos financeiros, é possível fazer mais pesquisa, mais desenvolvimento, mais tecnologia e, novamente, gerar cada vez mais inovação”.

“O único caminho para a prosperidade foi trabalhar duro, entregar boa qualidade e ser inovador. De todo o investimento em inovação no país, mais da metade é realizada por empresas privadas que mantêm laços estreitos com as instituições públicas de pesquisa”
Assim como Israel, a Suíça precisou superar a falta de recursos naturais, além de um histórico de severa escassez econômica desde a sua fundação, no final do século 13, até a sua industrialização, período em que figurou entre as nações mais pobres da Europa. Atualmente, a Suíça mantém o posto de país mais inovador do mundo, eleito pelo 16º ano consecutivo segundo o Índice Global de Inovação da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI). O cônsul-geral da Suíça em São Paulo, Peter Hafner, ponderou que a escassez de matérias-primas evitou a chamada “maldição dos recursos naturais” e levou o país a competir em qualidade e nichos de alta precisão, a exemplo da micromecânica desenvolvida na relojoaria e hoje aplicada às indústrias farmacêutica, automotiva, aeroespacial e de robótica. Hafner atribuiu o desempenho suíço a condições estruturais como estabilidade política, federalismo descentralizado com autonomia tributária nos estados, atração de imigrantes qualificados, regulação construída em diálogo com as empresas e um sistema educacional majoritariamente público, com forte valorização do ensino técnico e profissionalizante. “O único caminho para a prosperidade foi trabalhar duro, entregar boa qualidade e ser inovador. De todo o investimento em inovação no país, mais da metade é realizada por empresas privadas. Elas mantêm laços estreitos com as instituições públicas de pesquisa, orientam de certa forma os estudos e se beneficiam das spin-offs geradas a partir da pesquisa pública, além de desempenharem um papel fundamental em nossa educação técnica”, afirmou.

“Fazer ciência, pesquisa e inovação de sucesso, levando-as do laboratório até a comercialização, exige mais do que apenas uma ideia ou uma instituição isolada. Significa conectar universidades e talentos ao financiamento, seja do governo ou da indústria, e trabalhar em conjunto como um ecossistema”
A articulação direta entre produção científica, ambiente regulatório e crescimento econômico norteou a apresentação da cônsul-geral adjunta do Reino Unido em São Paulo, Sarah Clegg. A representante britânica destacou que seu governo investirá 60 bilhões de libras em pesquisa e inovação entre 2026 e 2030, direcionando os recursos para oito setores prioritários da estratégia industrial, que abrangem desde ciências da vida e transição energética até tecnologia de dados e defesa. O modelo do Reino Unido baseia-se no fortalecimento de ecossistemas que conectam universidades tradicionais ao financiamento público e privado, com o suporte de estruturas como a agência UK Research and Innovation (UKRI) e a rede de centros UK Catapult, que auxilia empresas a compreender marcos regulatórios e captar recursos. Ao mesmo tempo, a estratégia britânica aposta na descentralização do desenvolvimento por meio de polos setoriais (clusters) distribuídos por diferentes regiões do território e na formação de parcerias internacionais, inclusive com o Brasil e o Estado de São Paulo. “Fazer ciência, pesquisa e inovação de sucesso, levando-as do laboratório até a comercialização, exige mais do que apenas uma ideia ou uma instituição isolada. Significa conectar universidades e talentos ao financiamento, seja do governo ou da indústria, e trabalhar em conjunto como um ecossistema”, avaliou Sarah.

No encerramento da mesa, o secretário Vahan Agopyan lembrou que o Estado de São Paulo destina cerca de 11% de seu orçamento ao ensino superior, à pesquisa e ao desenvolvimento, garantindo a solidez das universidades públicas paulistas, de institutos como o IPT e da Fapesp, que em determinados anos apoia mais estudos do que todas as demais agências do País somadas. Apesar desse protagonismo, Agopyan analisou que, para alcançar resultados ainda mais expressivos e dar escala às empresas nascentes, como ocorre em nações europeias, o Brasil precisa avançar na estabilidade financeira para atrair capital internacional, ampliar a capacidade de incentivo a negócios inovadores e modernizar a legislação. Nesse sentido, o secretário apontou como marco recente a mudança legal brasileira realizada há dois anos que passou a permitir à administração pública utilizar seu poder de compra para contratar atividades inovadoras, e reforçou a necessidade de integração entre as instituições: “O que podemos fazer como governo é, de fato, aprimorar a legislação, utilizar o nosso peso como clientes na compra de inovação e fazer com que todo esse ambiente de inovação trabalhe em conjunto. Ou seja, buscar sinergia para alcançar resultados maiores do que os que obtemos hoje. Esse é o nosso maior desafio”.






