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Reeleição do presidente Lula: desafios de governabilidade e novos cenários políticos

Renato Janine Ribeiro analisa os fatores que levaram à vitória, os desafios do quarto mandato e a necessidade de preparar novas lideranças para a esquerda

Especialista cita a importância de manifestações populares em cidades brasileiras –  Foto: Marcelo Camargo/ Agencia Brasil
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito para um quarto mandato após reverter, no segundo turno, a desvantagem em relação ao senador Flávio Bolsonaro (PL). A diferença entre os candidatos chegou a quase 4,5 milhões de votos, mais que o dobro da registrada na eleição anterior. Entre os dois turnos, Lula conquistou mais de 10 milhões de votos.

Para Renato Janine Ribeiro, professor do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e ex-ministro da Educação, três fatores foram decisivos para o resultado: a atuação do deputado André Janones (Rede-MG) nas redes sociais, a mobilização espontânea de eleitores nas ruas e a adoção de medidas pelo governo federal na reta final da campanha.

Sobre Janones, o professor destaca a capacidade de compreender a dinâmica das plataformas digitais, tradicionalmente exploradas com habilidade pela extrema direita. “Ele é o único nome de esquerda que a gente conhece que realmente curte e domina a linguagem das redes sociais”, afirma. Janine ressalta que o deputado conseguiu mobilizar milhares de pessoas por meio do chamado “Exército do Lula” e, sobretudo, recuperar a confiança de eleitores que consideravam difícil derrotar o adversário.

“Mais do que mobilizar, ele foi capaz de devolver confiança”, diz o professor. Na avaliação dele, a campanha digital contribuiu para que pessoas desanimadas com o avanço da extrema direita voltassem a acreditar na possibilidade de vitória.

Renato Janine Ribeiro – Foto: Léo Ramos Chaves/Revista Pesquisa FAPESP

Outro fator decisivo, segundo Janine, foi a mobilização popular em diversas cidades, com destaque para a Avenida Paulista, em São Paulo, e a orla de Copacabana, no Rio de Janeiro. O professor enfatiza o caráter espontâneo das manifestações, organizadas também por meio de mensagens e convocações nas redes sociais, sem depender necessariamente de partidos ou organizações.

“Essas massas foram lá sem ser chamadas por partido, por organização, por nada”, afirma. Ribeiro também critica a cobertura jornalística dos atos e questiona os critérios utilizados para estimar o público de grandes manifestações. Para ele, a ausência de números sobre os atos em defesa de Lula contrastou com as estimativas frequentemente divulgadas para eventos anteriores.

O terceiro fator apontado pelo professor foi a reação do governo, que intensificou a adoção de medidas na reta final da disputa. Janine considera que algumas iniciativas necessárias demoraram a ser implementadas, mas contribuíram para o resultado eleitoral.

Os desafios do quarto mandato

Na avaliação de Janine, o principal desafio de Lula será conciliar a manutenção de uma frente ampla, que reúne setores da esquerda e da direita democrática, com a necessidade de atender às demandas da população mais pobre. A vitória eleitoral exigiu a união de grupos com expectativas políticas distintas: enquanto parte da base de esquerda espera medidas mais progressistas, outros eleitores apoiaram Lula principalmente para impedir o retorno do bolsonarismo ao poder.

“Como faz para manter, ao mesmo tempo, uma frente ampla e entregar resultados e beneficiar a massa pobre do País? É muito difícil isso”, questiona o professor. Para ilustrar o desafio, Ribeiro estabelece uma comparação com Getúlio Vargas, que, em sua análise, tinha capacidade de dialogar com diferentes campos políticos e construir apoio entre grupos distintos. Segundo o professor, Lula também demonstra habilidade para negociar tanto com setores conservadores e o chamado Centrão quanto com movimentos sociais e organizações de esquerda.

Essa capacidade de articulação, porém, será colocada à prova diante da composição do Congresso Nacional. Janine observa que a extrema direita ampliou sua presença, enquanto a esquerda não conseguiu aumentar significativamente sua participação na Câmara dos Deputados.

“Conversar com esse Congresso vai ser muito difícil. Vai depender essencialmente do Centrão”, afirma. O professor acrescenta que o avanço de forças conservadoras nos Estados também representa um desafio para o campo político de Lula.

A reorganização da direita após a derrota

A derrota de Flávio Bolsonaro pode, segundo Janine, abrir espaço para uma candidatura conservadora que não esteja diretamente subordinada ao bolsonarismo. Para ele, a segunda derrota eleitoral consecutiva desse campo político cria condições para que outras lideranças tentem construir projetos próprios. “Viabiliza um pouco uma candidatura de direita que se emancipa da hipoteca bolsonarista”, avalia.

Entre os nomes que poderiam ocupar esse espaço, o professor cita Tarcísio de Freitas, Eduardo Leite e Ratinho Júnior, além da possibilidade de surgir uma liderança do Nordeste. Na visão de Janine, a reorganização da direita dependerá da capacidade dessas figuras de se apresentar como alternativas políticas sem necessariamente reproduzir o modelo de liderança associado à família Bolsonaro.

O professor também critica a reação de Flávio Bolsonaro após a derrota, interpretando o questionamento do resultado como uma continuidade da postura adotada pelo bolsonarismo em relação às instituições eleitorais. Para Janine, contestar a votação sem apresentar justificativas proporcionais à diferença de votos enfraquece a legitimidade do próprio candidato derrotado.

A sucessão de Lula e os novos nomes da esquerda

Janine considera que o quarto mandato deverá ser também o período de preparação de novas lideranças para a esquerda. Como Lula não poderá disputar uma nova eleição presidencial em 2030, o professor avalia que é necessário construir alternativas desde o início do governo. “Está na hora de ter outro nome”, afirma.

Entre os possíveis sucessores, Janine menciona Fernando Haddad, Flávio Dino, Geraldo Alckmin, Simone Tebet e Marina Silva. Para ele, os cinco têm trajetórias e perfis políticos diferentes, mas demonstraram capacidade de convergência em defesa da democracia.

Haddad aparece como um nome ligado à formação política do próprio PT, enquanto Dino se destaca pela liderança política e pela atuação institucional. Alckmin, por sua vez, é apontado pelo professor como exemplo de capacidade de superar divergências históricas e construir alianças. Tebet e Marina Silva representam outras possibilidades de liderança, com trajetórias próprias e experiência na articulação de diferentes setores políticos.

Janine ressalta que a formação dessa sucessão não deve se limitar à escolha de um nome, mas envolver a construção de um projeto capaz de manter a unidade democrática e responder às demandas sociais do País. “Tudo isso augura um quarto mandato difícil e que tem que estar preparado desde o começo para atender esses desafios”, conclui o professor.

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