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O que Lula 4 significa para a transição energética e o clima

NESTA EDIÇÃO. Lula sinaliza prioridades em soberania digital e energia renovável no primeiro discurso após resultado das urnas.

Europa e Índia querem dar continuidade a cooperações comerciais e na agenda climática.

Quarto (e último) mandato também deve testar poder de negociação do petista com o Congresso Nacional.

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A reeleição, no domingo (25/10), do presidente Lula (PT) — com 51,8% dos votos válidos — para um inédito quarto mandato sinaliza para a continuidade de políticas aprovadas nos últimos anos para setores como biocombustíveis, hidrogênio, mercado de carbono, data centers, minerais críticos e terras raras. 
 
Todas elas ainda dependendo de decisões do Executivo para concretizar novas indústrias no Brasil, a exemplo dos combustíveis sustentáveis de aviação (SAF, em inglês), cujo mandato está previsto para iniciar em janeiro de 2027, ou do hidrogênio de baixo carbono, que aguarda o primeiro edital para concorrer a R$ 18 bilhões em subsídios.
 
O petróleo — e a Petrobras — também devem seguir relevantes na agenda energética nacional, considerando o plano de governo do petista e suas reiteradas defesas à exploração de novas fronteiras.
 
Pela frente, há ainda desafios para melhorar o aproveitamento da geração renovável e reduzir o chamado curtailment, ampliar a flexibilidade da matriz elétrica, e atender às novas demandas energéticas sem pressionar os demais consumidores. Entre essas novas cargas estão os data centers.
 
No discurso da vitória, na noite de domingo, ao lado do vice Geraldo Alckmin, Lula ligou os temas soberania digital e energia renovável, dizendo que não quer depender de modelos de inteligência artificial chineses ou norte-americanos e que o país deve usar a geração renovável para atrair data centers e desenvolver tecnologias localmente.
 
“Temos que aproveitar o potencial energético de um país que talvez seja o que tem mais capacidade de energia renovável para trazer para cá os data centers necessários para acumular também o nosso dado para o Brasil”, afirmou.
 
A lei do Redata, sancionada em setembro, já exige que as empresas beneficiadas reservem ao menos 10% da capacidade ao mercado interno.
 
O presidente prometeu investimento em “economia digital, na economia verde e na economia criativa” e citou a queda do desmatamento por quatro anos seguidos.



Organizações ambientais respiraram um pouco mais aliviadas com o resultado das urnas, enquanto líderes mundiais também associaram a vitória da chapa Lula-Alckmin à continuidade de cooperações nas áreas de comércio e clima. (BBC)
 
“Parabéns ao meu amigo [presidente Lula] pela sua vitória eleitoral. A democracia e o multilateralismo venceram no Brasil. A parceria da Europa com o Brasil está prosperando. Juntos, seguiremos trabalhando em estreita colaboração em prol de um comércio livre e aberto. Uma ordem global baseada em regras. E ambições sólidas em relação ao clima”, publicou a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, nas redes sociais.
 
O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, também felicitou o brasileiro, e manifestou interesse em reforçar cooperação em diferentes setores, “fazendo avançar as prioridades comuns do Sul”.
 
“Juntos, continuaremos a fortalecer nossa cooperação em diversos setores, promover as prioridades compartilhadas do Sul Global e trabalhar em prol de um mundo mais inclusivo, equitativo e sustentável”, escreveu Modi.

Já as organizações ambientais destacaram os desafios dos próximos anos para conciliar políticas de preservação com interesses econômicos e um Congresso Nacional com a oposição formando maioria.
 
“O Congresso já desferiu duros golpes contra o meio ambiente e o clima entre os anos 2023-2026. A nova lei de agrotóxicos, o avanço da tese do Marco Temporal e a implosão do licenciamento ambiental são exemplos”, aponta a Coordenação do Observatório do Clima, em nota.
 
O OC avalia que, na maioria dos casos de derrotas no Congresso Nacional ao longo de Lula 3, o Executivo se mostrou limitado em sua “capacidade e vontade de intervenção”. 
 
E defende a ampliação de alianças, lembrando que nos últimos quatro anos, o governo Lula conseguiu retomar o protagonismo do Brasil nas negociações internacionais de clima, com resultados positivos para a economia e a redução de emissões. 
 
Para o Instituto Talanoa, uma das realizações mais significativas do governo Lula foi a redução do desmatamento na Amazônia, mas o “próximo teste é se o Brasil consegue transformar a proteção florestal em uma estratégia econômica mais ampla que afaste o país dos combustíveis fósseis”.
 
“Lula conquistou mais uma oportunidade, mas não um cheque em branco para o clima. Seu governo reduziu o desmatamento na Amazônia, mas continua a considerar novas fronteiras petrolíferas, inclusive perto da foz do Rio Amazonas”, comenta Natalie Unterstell, presidente do instituto. 
 
Parte do avanço da agenda climática, no entanto, vai depender do Congresso Nacional, que saiu dessas eleições com um resultado menos favorável a ela. Ainda no discurso de domingo, o presidente reeleito admitiu que precisará negociar.
 
“Eu não escolhi o Congresso, foi o povo que escolheu. E é com ele que eu vou votar, vou trabalhar e vou aprovar as coisas.”


O desafio da governabilidade. A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL), por 4,430 milhões de votos e depois de uma virada histórica no segundo turno, não muda o fato de que ele terá de governar com um Congresso hostil ao petista e à agenda de centro-esquerda. 

  • Nem apaga o peso de uma parcela do eleitorado que votou em Lula menos por adesão ao PT e mais por antibolsonarismo: uma classe média que espera um olhar pragmático para as suas demandas. Leia na análise de Nivaldo Souza

Combate ao crime. O presidente-executivo do Sindicom, Augusto Salomon, afirmou que, com a reeleição do presidente Lula, a expectativa do setor é de que se intensifique o combate à atuação do crime organizado.

  • Ele menciona que, em 2026, o setor esteve no centro de debates relevantes, tanto pelos impactos da crise internacional sobre os preços e o fornecimento de diesel, quanto pelas investigações que expuseram a atuação do crime organizado, incluindo o uso de postos de combustível para lavagem de dinheiro e a prática de fraudes fiscais.

Gás argentino. A Eneva fechou com a comercializadora argentina Cinergia um acordo para importação de gás natural do país vizinho. A empresa brasileira entrou com pedido de autorização junto ao governo argentino para importação de até 400 mil m³/dia na modalidade interruptível, via Bolívia.
 
Trainee na Seagems. A empresa brasileira de engenharia submarina, e a Prefeitura de Rio das Ostras (RJ) anunciam a abertura de 20 vagas gratuitas para o Programa Piloto de ROV Trainee, iniciativa de qualificação profissional voltada à operação de robôs submarinos. As vagas são destinadas exclusivamente a moradores do município.

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