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Se a emissão vem da embalagem, a solução precisa passar por ela

plastico PET
Foto: Mizianitka | Pixabay

Quando compramos uma garrafa de refrigerante, um pote de shampoo, uma caixa de cereal ou uma embalagem de delivery, existe carbono envolvido em quase tudo: na extração da matéria-prima, na fabricação da embalagem, no transporte, no consumo e no descarte.

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Para quem fabrica esses produtos, muitas dessas emissões não aparecem dentro da fábrica. Elas estão na chamada cadeia de valor. No mundo das metas climáticas, isso é conhecido como Escopo 3. É uma forma técnica de dizer que a empresa também precisa olhar para o impacto que acontece antes e depois da sua operação direta.

Nos últimos anos, muitas empresas passaram a medir essas emissões e a prometer reduzi-las. Algumas diminuíram o peso das embalagens. Outras trocaram materiais. Outras criaram refis. Tudo isso é importante e deve continuar acontecendo. Se uma empresa consegue usar menos plástico, menos papel, menos vidro ou menos alumínio, ela reduz parte do seu impacto.

cosméticos sustentáveis
Foto: Ayush Kumar na Unsplash

Mas há uma pergunta que ainda precisa ser respondida: e o que acontece com as emissões que continuam existindo?

Mesmo com embalagens mais leves e produtos mais eficientes, o mundo continuará usando materiais. E esses materiais precisam ter um destino. Se forem parar em aterros, lixões, rios ou oceanos, perdemos valor econômico e aumentamos o impacto ambiental. Se forem reciclados, podem voltar para a indústria como matéria-prima e evitar a produção de novos materiais virgens.

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É aqui que a reciclagem ganha um novo papel.

cosméticos
Foto: Agenlaku Indonesia | Unsplash

Durante muito tempo, a reciclagem foi vista principalmente como uma boa prática ambiental. Separar o lixo, entregar o material corretamente, apoiar cooperativas, cumprir regras de logística reversa. Tudo isso continua válido. Mas agora a reciclagem pode ser vista também como uma solução climática.

Quando uma lata, uma garrafa, uma embalagem plástica ou uma caixa de papel é reciclada, ela pode substituir parte da matéria-prima nova que seria usada pela indústria. Produzir com material reciclado costuma evitar emissões em comparação com produzir tudo a partir de matéria-prima virgem. Portanto, reciclar também é uma forma de reduzir carbono.

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A diferença é que, para isso valer no mercado climático, não basta dizer que reciclou. É preciso provar.

O material precisa ser pesado, classificado, registrado, rastreado e destinado corretamente. É preciso saber de onde veio, para onde foi e qual impacto climático gerou. Em outras palavras, a reciclagem precisa sair do discurso e entrar na lógica da evidência.

Recicoplast
Área externa da cooperativa Recicoplast, no interior de São Paulo. Foto: Natasha Olsen

Esse é o ponto central da nova discussão internacional sobre metas climáticas corporativas. A SBTi, uma das principais referências globais em metas de redução de emissões, vem reforçando que as empresas devem priorizar ações conectadas à sua própria cadeia de valor. Ou seja, uma empresa não deve simplesmente comprar qualquer crédito de carbono distante da sua realidade e dizer que resolveu o problema.

Se a emissão vem das embalagens, a solução climática mais coerente deve estar ligada às embalagens.

Isso não significa abandonar outras soluções. Reduzir embalagem, redesenhar produtos, criar refis e trocar materiais continuam sendo medidas fundamentais. Mas essas ações reduzem o inventário da empresa. Depois delas, ainda sobra uma parte do impacto ligada aos materiais que continuam circulando na economia.

Para essa parte, o crédito de carbono da reciclagem pode se tornar uma resposta muito mais coerente do que créditos genéricos.

garrafas de plástico
Foto: Pixabay

Imagine uma empresa de bebidas que coloca milhões de garrafas no mercado.

Faz sentido ela reduzir o peso das garrafas? Sim. Faz sentido usar mais material reciclado? Sim. Faz sentido investir em refil quando possível? Sim. Mas, se ainda existe emissão ligada às embalagens, o crédito climático mais alinhado com esse impacto é aquele que financia a coleta, a triagem e a reciclagem de materiais semelhantes ou conectados à sua cadeia.

O mesmo vale para cosméticos, alimentos, produtos de limpeza, comércio eletrônico e supermercados. Quem coloca embalagem no mercado precisa ajudar a transformar embalagem usada em matéria-prima novamente.

Essa lógica pode mudar a forma como empresas compram créditos de carbono. Em vez de escolher apenas o crédito mais barato ou mais fácil, elas terão de buscar créditos com maior conexão com seu próprio impacto. Para embalagens, essa conexão passa pela reciclagem.

O Brasil tem uma oportunidade enorme nesse tema. Temos milhões de pessoas envolvidas direta ou indiretamente com a coleta e reciclagem de materiais. Temos cooperativas, catadores, operadores locais e empresas criando tecnologia para rastrear melhor os resíduos. Mas ainda reciclamos muito menos do que poderíamos.

garrafa de plástico
Foto: Pixabay

O crédito de carbono da reciclagem pode ajudar a mudar essa conta. Ele pode gerar dinheiro novo para pagar melhor a cadeia, melhorar a infraestrutura, profissionalizar a coleta e aumentar a quantidade de material reciclado. Ao mesmo tempo, ajuda empresas a enfrentarem suas emissões de forma mais próxima da origem do problema.

No fim, a ideia é simples: crédito de carbono não pode ser apenas uma forma de limpar a consciência. Ele precisa ajudar a transformar sistemas reais.

E poucos sistemas precisam tanto de transformação quanto o dos resíduos.

Se a emissão nasce da embalagem, a mitigação mais justa, rastreável e compreensível deve nascer da circularidade da embalagem. Reciclar, nesse novo cenário, deixa de ser apenas separar o lixo corretamente. Passa a ser também uma ferramenta concreta de combate à crise climática.

Rodrigo Oliveira
Colunistas CicloVivo: Neste espaço, especialistas de diversas áreas compartilham opiniões e pontos de vista, que não necessariamente refletem o posicionamento do CicloVivo.
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