Por Marcelo Módolo, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, e Henrique Braga, doutor pela FFLCH-USP
A expressão já circula faz um tempo e parece ter encontrado terreno fértil no debate político brasileiro. Pode-se argumentar que o título do livro de Jessé Souza (O pobre de direita: a vingança dos bastardos) ajudou a popularizar o termo, embora seja difícil resgatar as origens exatas de uma expressão como essa. Não há dúvida, entretanto, de que ela pegou. Quando um sujeito das classes populares se identifica com temas como meritocracia, truculência policial ou privatizações, o rótulo não tarda: eis o “pobre de direita”.Vozes do campo progressista, todavia, têm chamado a atenção para os riscos dessa expressão, que pode soar arrogante, presunçosa e, assim, prejudicar o diálogo com camadas populares.
Para discutir o tema, recorremos mais uma vez ao enunciado paródico que, na coluna anterior, trouxemos por inspiração do linguista George Lakoff: “é o enquadramento, estúpido”.
Revisando a noção de enquadramento
Em nossa coluna anterior, recorremos às ideias sintetizadas por George Lakoff no recém-traduzido Não pense num elefante: entenda seus valores e aprenda a enquadrar o debate. Uma das ideias centrais da obra – que recorre à semântica de quadros à luz da linguística cognitiva – é que o debate político deve sempre priorizar o enquadramento dos temas. Isso porque, segundo Lakoff, as pessoas pensam em termos de quadros e metáforas, estruturas de base neural que orientam sua interpretação da realidade.
Exemplos abundam: um grupo político que defenda a privatização de uma universidade pública dificilmente enquadrará tal medida no rol de ações que enfraquecem o interesse público diante do capital privado. Antes, construirá quadros mentais que associem tal medida ao “ganho de eficiência” ou à “busca por soluções para problemas reais”, geralmente ignorando o debate sobre o papel estratégico das universidades para o desenvolvimento de uma nação. Outro caso: grupos contrários a direitos reprodutivos das mulheres se apresentam como “pró-vida”, construindo um enquadramento no qual seus opositores estariam defendendo a morte.
O enquadramento em “pobre de direita”
Existe uma vastidão de termos com que se podem identificar as pessoas chamadas de “pobres”: “pessoas de baixa renda”, “nova classe média”, “classe C”, entre outros. Essa variedade de perífrases sugere que, se muitos brasileiros evitam se reconhecer como “ricos”, como se observa no best-seller de Michel Alcoforado, a identificação como “pobre” também pode encontrar resistência. É nesse contexto que a expressão “pobre de direita”, quando usada para desqualificar o interlocutor, pode se tornar duplamente ofensiva: além de designar o oponente ideológico por meio de um termo que ele rejeita (haja vista a miríade de termos utilizados para evitar a palavra “pobre”), pressupõe que seu posicionamento político seria incompatível com sua posição social. Ao desqualificar o interlocutor, no entanto, o que se obtém é a criação de um enquadramento cognitivo que pode acabar fortalecendo os valores conservadores que se pretende combater.
Sobretudo com a popularização das mídias sociais, criou-se toda uma rede de influenciadores, coaches e afins que ensinam a sua gigantesca audiência como “sair de baixo” e “vencer pelo esforço”, propagando um discurso meritocrático. Prega-se, portanto, que, para sair da condição socialmente desfavorecida, deve-se adotar uma visão de mundo neoliberal. Numa via oposta, ao se tratar o “pobre de direita” como uma incoerência, cria-se um enquadramento em que a pessoa mais humilde seria necessariamente esquerdista. Ocorre que existe uma parcela expressiva de indivíduos nesse grupo social cuja maior aspiração é, antes de mais nada, não se identificar com esse quadro. Assim, parece haver um paradoxal consenso entre o militante inconformado e o coach de finanças: a pobreza é da esquerda, a prosperidade é da direita.
Para uma parcela expressiva da população, parece mais sedutor o enquadramento no qual o sujeito faz parte de uma “nova classe média”, capaz de, por meio do seu esforço (e da ajuda divina), ostentar os mesmos bens exibidos nas redes pelo seu influenciador favorito (muitas vezes, alguém que condena a esquerda). Não é, evidentemente, o caso de validar essa espécie de comércio de ilusões. Contudo, ignorar a força desse discurso é, no mínimo, ingênuo.
“Comunista de iPhone”: reforço do mesmo quadro
Se todo enunciado é dialógico (ou seja, evoca outros discursos que circulam em sociedade), o “comunista de iPhone”, na arena discursiva brasileira, seria o “doppelganger” do dito “pobre de direita”.
As expressões são faces de uma mesma moeda, já que, ao apontar supostas contradições, ambas podem acabar reforçando uma mensagem comum: o esquerdismo é “coisa de pobre”, o conservadorismo é “coisa de rico”.
Em seu Não pense num elefante, Lakoff adverte que think tanks conservadores trabalharam por décadas para, por meio da linguagem, popularizar a ideia de que os progressistas seriam “elitistas afetados, antipatriotas frívolos”, usando termos como “liberais de limusine” ou “liberais de Hollywood”.
No Brasil, quando o campo progressista acolhe e dá curso à expressão “pobre de direita”, corre o risco de compactuar com o adversário. Convém, portanto, rever o enquadramento do debate. Ao fazer da pobreza o lugar político inerente ao seu eleitor, o campo progressista ajuda a direita a se apresentar como uma saída viável – ao menos no campo do discurso e, por que não, dos sonhos.
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