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Menopausa e a saúde cardiovascular

Mudanças hormonais e metabólicas podem elevar o risco cardiovascular, e a avaliação individualizada durante o climatério ajuda a orientar medidas de prevenção e preservar a saúde ao longo do envelhecimento

Os colunistas da Rádio USP têm total independência em seus comentários. Suas opiniões não refletem, necessariamente, a posição ou as escolhas editoriais do Jornal da USP. As informações veiculadas nas colunas também são de total responsabilidade de seu autor.

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As doenças cardiovasculares são a principal causa de mortalidade feminina no mundo, sendo responsáveis por aproximadamente um terço das mortes entre mulheres. Precisamos entender que cuidar do coração é fundamental para promover a longevidade e a qualidade de vida das mulheres.

A transição menopausal merece atenção especial porque reúne mudanças hormonais e metabólicas que podem modificar o risco cardiovascular. Com o declínio da função ovariana e a redução dos níveis de estrogênio, ocorrem alterações na distribuição da gordura corporal, no metabolismo dos lípides, na sensibilidade à insulina e na regulação da pressão arterial. Também podem surgir alterações na função do endotélio, a camada que reveste internamente os vasos sanguíneos e contribui para a saúde vascular.

Em conjunto com o envelhecimento e outros fatores individuais, essas mudanças podem favorecer a progressão da aterosclerose, caracterizada pelo acúmulo de placas nas artérias, que podem comprometer a circulação e, em determinadas circunstâncias, desencadear um infarto ou um acidente vascular cerebral.

É importante ressaltar que a menopausa não determina, por si só, o desenvolvimento de uma doença cardiovascular. O risco resulta da interação entre fatores hormonais, idade, genética, pressão arterial, colesterol, diabetes e hábitos de vida. Portanto, a transição menopausal deve ser compreendida como uma janela estratégica para a prevenção cardiovascular.

É um momento oportuno para avaliar a pressão arterial, o colesterol, a glicemia, a composição corporal, os hábitos de vida e o histórico familiar, além de reconhecer precocemente outros fatores de risco. Precisamos olhar para a menopausa como uma oportunidade para cuidar da saúde integral e da longevidade da mulher. Quanto mais cedo identificarmos os fatores de risco e adotarmos estratégias individualizadas de prevenção, maiores serão as oportunidades de preservar a saúde cardiovascular ao longo do envelhecimento.

A história clínica minuciosa é a ferramenta mais valiosa que temos. Na cardiologia da mulher, não avaliamos apenas os fatores de risco tradicionais — como hipertensão, diabetes, tabagismo e colesterol elevado. Precisamos investigar os fatores de risco específicos do sexo feminino acumulados ao longo de toda a história reprodutiva e obstétrica. Condições como histórico de pré-eclâmpsia, hipertensão gestacional, diabetes gestacional, partos pré-termo, menopausa precoce ou síndrome dos ovários policísticos aumentam significativamente o risco cardiovascular da mulher ao longo da vida.

Quando o médico resgata essa história na consulta de climatério, ele consegue enxergar a real carga de risco acumulada e intervir muito antes de a doença se manifestar como um infarto ou AVC. A estratificação de risco consiste em classificar a paciente em categorias — baixo, intermediário ou alto risco — para guiar as decisões preventivas e terapêuticas.

No entanto, como a aterosclerose avança de forma silenciosa nas paredes arteriais, os escores de risco convencionais podem por vezes subestimar a gravidade da condição em mulheres. Por isso, o rastreamento da aterosclerose subclínica é fundamental. Exames vasculares não invasivos, como a ultrassonografia de carótidas (para avaliar o espessamento íntima-média e a presença de placas de ateroma) e o Doppler arterial de membros inferiores, associados ao Escore de Cálcio Coronariano (CAC) via tomografia, permitem identificar a doença vascular em fase pré-clínica em mulheres aparentemente saudáveis.

Ao detectar essas alterações antes dos sintomas, conseguimos reclassificar o risco e intensificar a prevenção primária, ajustando metas de colesterol e indicação de estatinas. Além disso, identificamos a janela de oportunidade para o início da Terapia Hormonal da Menopausa (THM) — que deve ser indicada para o controle de sintomas vasomotores nos primeiros dez anos de menopausa ou antes dos 60 anos. Vale ressaltar que as diretrizes não recomendam a THM com o objetivo isolado de prevenção primária de doenças cardiovasculares, reforçando que o pilar da prevenção continua sendo o estilo de vida saudável e o controle rigoroso dos fatores cardiometabólicos.

CIÊNCIA QUE FICA: O infarto é a principal causa de morte entre as mulheres, mas pode ser prevenido. A menopausa não é uma doença, mas sim uma janela estratégica para avaliar o risco cardiovascular, investigar a história de saúde e rastrear a aterosclerose com exames como o ultrassom de carótidas e o Doppler arterial antes que ela se manifeste. Cuidar do coração no climatério é garantir autonomia e vida longa.

MenoPausa sem Pausa

Com a Profª. Silvia Vanessa Lourenço

A coluna MenoPausa em Pausa, com a Profª. Silvia Vanessa Lourenço, vai ao ar quinzenalmente às quintas-feiras às 8h30, na Rádio USP (São Paulo 93,7 FM; Ribeirão Preto 107,9 FM), com produção da Rádio USP.

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