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Desigualdade urbana amplia impactos de eventos climáticos extremos

Diferenças na infraestrutura e nas condições de moradia deixam a população de baixa renda mais vulnerável aos riscos e dificultam a recuperação após temporais

Por Mel Rodrigues*

Fotografia em plano fechado, no formato retrato, de um homem de meia-idade, careca e de pele clara, olhando diretamente para a câmera com uma expressão serena e neutra. Ele possui olhos castanhos, sobrancelhas finas e lábios finos. Veste uma camisa social cinza-clara, de tecido levemente texturizado, com os botões superiores abertos.
Moradores caminham por rua alagada em área urbana afetada por eventos climáticos extremos – Foto: Juan Moccagatta/Pexels
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Os impactos dos eventos climáticos extremos não se distribuem igualmente entre os moradores de uma cidade. A infraestrutura urbana, a distribuição dos investimentos públicos e as condições de moradia influenciam tanto a exposição aos riscos quanto a capacidade de recuperação após temporais. Em Ribeirão Preto, as diferenças entre as regiões Norte e Sul ajudam a compreender como a organização do espaço urbano está relacionada à vulnerabilidade da população.

O professor Jeferson Tavares, do Instituto de Arquitetura e Urbanismo (IAU) da USP, explica que moradores de regiões com infraestrutura insuficiente e habitações precárias estão mais expostos aos riscos. Segundo ele, a falta de políticas públicas também contribui para que essa população ocupe áreas vulneráveis. “Essas pessoas acabam ocupando áreas impróprias para ocupação, não por um desejo ou uma opção, mas por uma falta de política pública habitacional, por falta de política pública de geração de renda, que acaba empurrando essa população para territórios que são muito, muito mais vulneráveis e expostos aos riscos”, afirma.

Em Ribeirão Preto, a segregação urbana também se manifesta na distribuição dos investimentos e da infraestrutura entre as zonas Norte e Sul. Tavares relaciona essa organização ao crescimento urbano e à distribuição desigual dos recursos. “Essa condição evidentemente já proporciona uma condição básica de segregação, distanciamento da população mais pobre das infra estruturas mais adequadas, aproximação da população mais rica dessas infraestruturas”, explica.

O professor também destaca a diferença na presença de investimentos públicos e privados entre as duas regiões. Para ele, essa distribuição contribui para que os eventos extremos tenham consequências distintas conforme as condições socioeconômicas dos moradores. “Isso configura um contexto em que, mesmo tendo a incidência de eventos extremos em ambas as zonas, evidentemente a zona norte acaba sendo mais prejudicada.”

A relação entre desigualdade social e exposição aos riscos também pode ser compreendida pelo conceito de sociedade de risco, desenvolvido pelo sociólogo Ulrich Beck. Tavares utiliza essa perspectiva para explicar como a distribuição da riqueza está relacionada à incidência dos riscos na sociedade. “Todos estão expostos aos riscos mas, onde você tem maior concentração de riqueza, os riscos têm menor incidência, e onde você tem menor concentração de riqueza, os riscos têm maior incidência. Ou seja, uma relação assimétrica onde os riscos incidem de forma inversamente proporcional”, explica.

Modelo de urbanização e mudanças climáticas

Além das desigualdades sociais, o modelo de urbanização também influencia a vulnerabilidade das cidades. Tavares aponta que características da infraestrutura urbana podem contribuir para a intensificação dos eventos extremos, especialmente pela dependência do automóvel, pela impermeabilização do solo e pela ocupação de áreas ambientalmente frágeis.

Fotografia externa em plano médio de uma rua periférica totalmente coberta por água devido a um alagamento. No lado direito, quatro pessoas, uma mulher adulta e três crianças/jovens, caminham com a água na altura das coxas. A mulher à frente carrega uma sacola grande e colorida no colo e uma mochila nas costas. Ao lado dela, uma criança usa casaco com capuz, casaco esportivo e segura um cajado de madeira para se equilibrar na água. Ao fundo, vêem-se casas simples de tijolo aparente, fiação elétrica aérea e árvores sob um céu azul sem nuvens.
Jeferson Tavares, professor do Instituto de Arquitetura e Urbanismo (IAU/USP) – Foto: Arquivo pessoal

“Eu costumo dizer que existe um ciclo vicioso da infraestrutura, que é, quando você produz a cidade, com a urbanização da cidade a partir de um conjunto de padrões de infraestruturas herdadas do século 19, esse padrão contribui para a intensificação das mudanças climáticas e dos eventos extremos, porque ele é um padrão muito dependente do automóvel, que gera gás carbônico, gás de efeito estufa, ele é um padrão de impermeabilização do solo, de interrupção do ciclo natural da água, o que a gente chama de ciclo hidrológico, e de urbanização de áreas muito frágeis”, afirma.

De acordo com o professor, a repetição desse modelo também dificulta a adaptação das cidades. Quando infraestruturas danificadas são reconstruídas seguindo os mesmos padrões, elas permanecem expostas a fatores que contribuíram para os problemas anteriores. “A forma de romper esse ciclo é a partir da adaptabilidade das cidades, que hoje tem olhado muito para soluções baseadas na natureza, nas infraestruturas verdes e azuis, e nos serviços ecossistêmicos”, explica.

Os planos municipais de adaptação e resiliência climática também devem considerar as diferentes áreas de risco e integrar setores como mobilidade, saúde, educação e gestão de resíduos. Para o professor, a elaboração desses instrumentos precisa levar em conta as características de cada território e a relação entre os municípios de uma mesma região. “O objetivo é identificar as principais áreas que estão submetidas a riscos e, via de regra, ou são áreas onde está a população mais de baixa renda, ou são áreas que, embora sejam áreas centrais, são aquelas onde a população de mais baixa renda trabalha ou acessa serviços administrativos e serviços públicos essenciais”, afirma.

A participação da população é outro aspecto que Tavares considera fundamental para a elaboração dos planos climáticos e de redução de riscos. Ele defende que as comunidades afetadas sejam ouvidas antes da definição das medidas. “É fundamental que todos esses planos tenham um período de escuta e discussão das soluções com a população afetada”, afirma.

O professor também critica modelos de planejamento em que as decisões são tomadas sem consulta às comunidades. Para ele, a discussão deve envolver moradores e profissionais responsáveis pelo planejamento urbano. “A discussão política e técnica das decisões de um plano tem que passar pela discussão com a comunidade, com a sociedade, com a população que é afetada pelos eventos extremos e que está em áreas de risco, tem que ser discutida com os técnicos da prefeitura”, explica.

Para Tavares, a adaptação das cidades depende de medidas que articulem infraestrutura, políticas públicas e participação social, considerando as características dos territórios e as condições da população exposta aos eventos climáticos extremos.

*Estagiária sob supervisão de Gabriel Soares

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