O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito no domingo (25/10) com 51,8% dos votos válidos, contra 48,2% de Flávio Bolsonaro (PL), segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). É a primeira vez, desde a adoção do 2º turno para presidente, em 1989, que o segundo colocado no 1º turno vence a eleição.
Na energia, os dois candidatos terminaram a campanha dizendo que não privatizariam a Petrobras, e ambos querem atrair data centers, investimentos em renováveis e terras raras. A diferença apareceu na relação com os Estados Unidos e no controle sobre setores estratégicos, o que levou a soberania para o centro da disputa.
Flávio é alinhado ao governo de Donald Trump. Em março, na conferência conservadora CPAC, no Texas, disse que o Brasil seria a solução para os EUA reduzirem a dependência da China em minerais críticos. Em setembro, prometeu levar o país ao Escudo das Américas, aliança militar e de segurança lançada por Trump em março com países do continente para combater cartéis do narcotráfico, e defendeu a adesão no debate da Band.
Lula e o PT defenderam o controle do Estado, por meio de regulação, nesses setores. A lei de minerais críticos sancionada em setembro dá ao governo o poder de aprovar a entrada de estrangeiros no setor, a lei do Redata reserva parte da capacidade dos data centers ao mercado interno. Agora, Lula promete regular as plataformas digitais.
No discurso, redes, data centers e clima
No discurso da vitória, na noite de domingo, ao lado do vice Geraldo Alckmin, Lula disse que a eleição teve “intromissão vinda de fora para dentro através de plataformas digitais” e que o governo vai regulá-las.
“Nós não podemos ter empresas monstruosas de grande, ganhando milhões e bilhões, não pagando nenhum imposto para esse país e tentando direcionar o resultado eleitoral desse país”, afirmou.

Lula ligou os temas: soberania digital e energia. Também disse que não quer depender de modelos de inteligência artificial chineses ou norte-americanos e que o país deve usar a geração renovável para atrair data centers e desenvolver tecnologias localmente.
“Temos que aproveitar o potencial energético de um país que talvez seja o que tem mais capacidade de energia renovável para trazer para cá os data centers necessários para acumular também o nosso dado para o Brasil”, afirmou.
“E essa gente vai ter que deixar uma parte do data center para informações brasileiras.” A lei do Redata, sancionada em setembro, já exige que as empresas beneficiadas reservem ao menos 10% da capacidade ao mercado interno.
O presidente prometeu investimento em “economia digital, na economia verde e na economia criativa” e citou a queda do desmatamento por quatro anos seguidos.
Sobre a relação com o Legislativo, onde passam as pautas de regulação, disse que vai negociar com o Congresso eleito. “Eu não escolhi o Congresso, foi o povo que escolheu. E é com ele que eu vou votar, vou trabalhar e vou aprovar as coisas.” Lula não citou Petrobras, petróleo nem políticas de preços dos combustíveis.
O Congresso que toma posse em fevereiro de 2027 terá o PL como maior bancada na Câmara e no Senado. O partido elegeu 121 deputados, contra 88 da federação PT-PCdoB-PV. No Senado, o PL terá 28 das 81 cadeiras e o PT, nove.
Como foi a virada?
Flávio terminou o 1º turno, em 4/10, com 2,2 milhões de votos a mais que Lula. Em três semanas, Lula ganhou 10,4 milhões de votos, mais do que os 9,3 milhões dados aos dez candidatos eliminados, e terminou 4,4 milhões à frente. Flávio ganhou 3,7 milhões, e o número de eleitores que não foram votar caiu de 33,5 milhões para 30,5 milhões.
Lula cresceu nas 27 unidades da federação. São Paulo respondeu sozinho por 21% da mudança na margem entre os dois, e todo o Sudeste, por 43%. Minas Gerais foi o único estado a trocar de lado. Nas capitais, Lula venceu em 13 das 27, duas a mais que no 1º turno (Rio de Janeiro e Macapá). Flávio ficou com 14; as maiores delas são Brasília, Belo Horizonte e Manaus.
Os números consideram 99,97% das seções totalizadas pelo TSE às 21h58 de 25/10, no fechamento deste texto.

O mapa quase não mudou de cor. Lula venceu em 13 unidades da federação, uma a mais que no 1º turno, e virou ampliando a vantagem onde já era forte e encolhendo a desvantagem onde perdia.
No Nordeste, a margem dele subiu de 11,1 milhões para 13,7 milhões de votos, o suficiente para compensar Sul, Sudeste e Centro-Oeste, onde Flávio terminou 9,3 milhões à frente.
No Sul, Flávio manteve 4,6 milhões de votos de vantagem (eram 5,0 milhões no 1º turno). No Norte, onde Flávio liderava por 459 mil votos no 1º turno, os dois terminaram praticamente empatados.

Petrobras: Lula quer a estatal de volta à distribuição; equipe de Flávio se dividiu sobre privatização
O programa do PT prevê a volta da Petrobras à distribuição de combustíveis e mais refino. Em sabatina no estúdio eixos, durante a ROG.e, em 21/9, o coordenador do programa e ex-presidente da estatal, José Sérgio Gabrielli, disse que a forma dessa volta será definida pela empresa.
“Quem decide quando, como, é a Petrobras, não é a campanha, nem é o governo que vai decidir a forma, é a Petrobras”, afirmou. Em 30/9, Lula disse que vai comprar uma distribuidora.
No debate da Band, em 18/10, Lula disse que o adversário quer privatizar a Petrobras. Flávio negou no debate da TV Globo, na sexta (23/10). “Eu não vou privatizar Caixa, Banco do Brasil e Petrobras”, disse Flávio.
Em dezembro de 2025, em entrevista à Reuters, Flávio se disse favorável à venda de ativos dos Correios e, possivelmente, da Petrobras, como mostrou a eixos. O plano de governo do PL não cita a Petrobras no capítulo de energia e prevê retomar o programa de desestatização avaliando “caso a caso”.
Os assessores de Flávio para energia não falaram a mesma coisa. Alexandre Chequer, advogado especializado em energia que assessorou a campanha como voluntário, descartou a venda em entrevista à Bloomberg Línea, em 22/10. “O que foi discutido da Petrobras é que ela não será privatizada. Ponto”, disse Chequer.
Na mesma entrevista, Chequer defendeu mais autonomia para a Petrobras. Segundo ele, as decisões sobre operações e portfólio, como onde investir e que ativos comprar ou vender, devem ficar com a direção da empresa.
Ele elogiou os desinvestimentos, classificou como “puramente ideológica” a decisão de manter o polo Bahia Terra e criticou a volta da estatal aos fertilizantes, área em que, para ele, a empresa não tem experiência. Disse ainda que a campanha não discutia a política de preços dos combustíveis.
Adriano Pires, coordenador da área de energia do plano de governo, defendeu em agosto discutir uma capitalização da Petrobras nos moldes da que foi feita na Eletrobras. “Eu não vejo nenhum problema, eu não vejo nenhum fantasma em discutir isso”, disse ao SBT News, em 25/8. Segundo o SBT News, a medida não estava prevista no plano de governo.
Pires é defensor histórico da paridade de importação (PPI), que guiou os preços da Petrobras de 2016 a 2023, como a eixos mostrou quando ele foi indicado para presidir a estatal, em 2022. Em artigo publicado no Poder360 em abril de 2025, escreveu que o Brasil, por importar derivados, “deveria seguir a lógica do mercado internacional”.
No pregão seguinte ao 1º turno (5/10), em que Flávio terminou à frente, as ações preferenciais da Petrobras fecharam em alta de 8,2%, depois de chegar a subir cerca de 10%.
Subsídios aos combustíveis cresceram entre os turnos
O preço dos combustíveis entrou na campanha mais por atos do governo do que por propostas. Em 9/10, cinco dias depois do 1º turno, o governo zerou os tributos federais da gasolina por 30 dias, e a desoneração passou de R$ 0,63 para R$ 0,89 por litro.
Também anunciou mais R$ 1,40 por litro ao diesel importado, em vigor desde 13/10, somados aos R$ 2,12 que já vigoravam. Na coletiva, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, negou relação com a eleição, e o governo disse que o decreto anterior da gasolina vencia naquele dia.
No plano de governo, o PT critica a gestão de Jair Bolsonaro por ter deixado “uma bomba fiscal para estados e municípios com a desoneração artificial de combustíveis”. O governo Lula diz que a desoneração atual é compensada com receitas extraordinárias do petróleo (Ministério da Fazenda).
Lula levou a medida aos comícios. “Ao contrário do mundo inteiro, no Brasil hoje a gasolina diminuiu”, disse em Natal, em 10/10. Flávio acusou o governo de fazer uso eleitoreiro da Petrobras e disse que o preço do diesel poderia subir depois da eleição.
Flávio prometeu acabar com o imposto de 12% sobre a exportação de petróleo, criado em março junto com o corte de tributos do diesel, diante da alta do petróleo com a guerra no Oriente Médio.
“Vamos acabar com essa alíquota de exportação de petróleo de 12% que inventaram por causa da guerra”, disse em 6/8. O plano dele prevê “redução de impostos sobre energia e combustíveis” e deixa o detalhamento para o documento “Brasil Mais Barato”.
Lula sancionou Combustível do Futuro; Flávio criticou etanol
O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou em 14/7 a mistura de 32% de etanol na gasolina (E32), em vigor desde 1/8 por 180 dias. O programa do PT apresenta o E32 e a mistura de 15% de biodiesel no diesel (B15) como conquistas do governo. A mistura maior foi aberta pela Lei do Combustível do Futuro (Lei 14.993), sancionada por Lula em outubro de 2024.
Em live em 20/8, Flávio disse que a quantidade de etanol na gasolina é “uma coisa que a gente vai ter que discutir” e comparou a mistura à reduflação. “A gasolina também: uma parte virou etanol. Nem o combustível esse governo está poupando”, afirmou. Seis entidades do setor sucroenergético reagiram lembrando que o candidato participou da aprovação da Lei do Combustível do Futuro.
Em 24/8, o coordenador-geral da campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), divulgou nota em que chama Flávio de “defensor do setor sucroenergético e dos biocombustíveis” e diz que a mistura “deve ser tratada como política de Estado”.
A nota acusou o governo Lula de transformar a política de mistura em “instrumento episódico para tentar conter a alta dos preços às vésperas de uma eleição”.
Lula quer controle sobre terras raras e data centers; Flávio fez promessas aos EUA
Lula fez das terras raras tema de ataque. Disse em abril que Flávio e Ronaldo Caiado iriam “vender o Brasil”. Em 16/9, sancionou a lei de minerais críticos, que dá a um conselho ligado à Presidência e à Agência Nacional de Mineração (ANM) o poder de aprovar a troca de controle de empresas do setor e a entrada de estrangeiros. “Como sempre, os traidores da pátria, mais uma vez, caíram de joelhos diante dos Estados Unidos”, disse na cerimônia.
Em abril, um mês depois da fala de Flávio na CPAC, a norte-americana USA Rare Earth anunciou a compra da Serra Verde, em Minaçu (GO), por cerca de US$ 2,8 bilhões. A operação, concluída em setembro, inclui a única mina de terras raras em produção comercial no país, segundo o Centro de Tecnologia Mineral (Cetem).
No debate da Band, Lula perguntou se Flávio entregaria as terras raras aos EUA. “Mais uma fake news que eu pude desmentir aqui, olhando nos seus olhos”, respondeu Flávio, sem dizer se permitiria a exploração por empresas norte-americanas. Para o setor, o plano do PL diz que “o Estado atuará como regulador e coordenador, não como empresário”.
Os dois candidatos querem atrair data centers. O governo sancionou em 15/9 o regime especial de tributação para o setor, o Redata. Lula defendeu contrapartidas. “Não vamos deixar que a energia produzida vá somente para o data center”, disse em ato de campanha em Santa Catarina, em 19/9. Flávio prometeu levar data centers à Zona Franca de Manaus e o plano do PL fala em um “polo global de data centers sustentáveis”.
Nas renováveis e na conta de luz, os dois lados defenderam cortar subsídios. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD), que desistiu de concorrer ao Senado em março e disse que faria campanha pela continuidade do governo, disse em 30/7 que quer “subsídio zero nos próximos quatro anos” para geradores.
O plano do PL prevê a “redução gradual da CDE e das fontes incentivadas, mantida a tarifa social”.
O que temos pela frente (no curto prazo)
A agenda de energia tem prazos que começam a vencer nesta semana:
- Diesel. A subvenção de R$ 2,12 por litro vence nesta segunda (26/10) e pode ser prorrogada por 30 dias. Até a noite de domingo, a eixos não localizou ato de prorrogação. O adicional de R$ 1,40 ao diesel importado vale por 30 dias desde 13/10.
- Gasolina e etanol. A desoneração de R$ 0,89 por litro na gasolina e de R$ 0,19 no etanol vai até 9/11.
- E32. O prazo inicial de 180 dias do E32 termina no fim de janeiro, e a mistura pode ser prorrogada uma vez.
- Preços da Petrobras. Em relatório divulgado pela InfoMoney em 22/10, o Goldman Sachs estimou que o diesel da estatal está 21% abaixo da paridade de importação mesmo com a subvenção.
- Imposto de exportação do petróleo. A alíquota de 12% vale até 6/11, pela última prorrogação da Camex. O governo terá de decidir se renova a cobrança.
- Data centers. O Redata depende de regulamentação do Executivo para a habilitação das empresas e para os critérios de energia renovável ou de baixa emissão. A suspensão de PIS/Cofins e IPI vale só até 31/12/2026. Segue em aberto se o gás natural conta como fonte de baixa emissão.
- Leilões de baterias. Os dois primeiros leilões de armazenamento estão marcados para 2 e 4/12, e parte dos agentes pede adiamento até que se defina quem paga a conta.
- Terras raras. O conselho de minerais críticos, criado pela lei e regulamentado por decreto em setembro, tem de elaborar o plano nacional e a lista de minerais do setor. A entrada da União no fundo garantidor, com até R$ 2 bilhões, depende de ato da Fazenda.
- Combustível sustentável de aviação (SAF). A Lei do Combustível do Futuro obriga as companhias aéreas a começar a cortar emissões com SAF em 2027. O decreto geral da lei saiu em agosto, mas ainda falta o decreto específico do programa de SAF, que depois será detalhado em normas da Anac e da ANP.
- Gás natural. O plano de governo de Lula ignora a agenda do gás do próprio governo. Nas próximas semanas, terá que se posicionar sobre temas como o gas release, programa da ANP para obrigar a Petrobras a vender parte do gás que compra de terceiros.
Antes de Lula 4, o 3º turno
Flávio não reconheceu o resultado e anunciou, em pronunciamento na noite de domingo, que vai pedir a anulação da eleição. “É impossível reconhecer o resultado dessa eleição no contexto em que essas coisas aconteceram”, afirmou.

O argumento é a decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), que, a pedido da coligação de Lula, prorrogou a votação até as 19h em todo o país. O pedido alegava falta de ônibus, inicialmente em Salvador, Feira de Santana e Lauro de Freitas (BA).
Depois, Zanin esclareceu que seções já encerradas não precisavam reabrir. Flávio diz que a regra mudou com parte das urnas já fechada e lembrou que Zanin foi advogado de Lula.
Contudo, a própria campanha de Flávio havia pedido ao TSE, durante a votação, a prorrogação em municípios de São Paulo, Paraná, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, por causa de chuvas e alagamentos.
Os presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre, reconheceram a vitória de Lula na noite de domingo. “Não há o que se contestar”, disse Alcolumbre, que disse que Lula terá a missão de pacificar o país. Motta pediu conciliação. “Nós temos um Brasil dividido, um Brasil que passou, infelizmente, os últimos quatro anos radicalizado”, afirmou.
O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, afirmou, em pronunciamento após a confirmação do resultado, que a liminar “gerou dificuldades ao processo eleitoral” e criou a maior fila de boletins de urna já registrada pelo tribunal, que a equipe técnica conseguiu contornar. “Volto a dizer: não houve nenhuma alteração advinda da decisão judicial”, disse.
Nunes Marques chegou ao STF em 2020 indicado por Jair Bolsonaro, com o apoio de Flávio. A revista piauí revelou, em série de reportagens, mensagens de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, com interlocutores tratando da relação com o ministro e ao menos uma votação de interesse da empresa em que Nunes Marques votou a favor dos interesses de Vorcaro, em um caso envolvendo precatórios. Nunes Marques nega ter trocado mensagens com Vorcaro ou feito pedidos a ele.
Esta matéria foi produzida com auxílio de inteligência artificial e revisada por um editor da eixos. Conheça nossos princípios editoriais e nossa política de correções.






