
As mudanças climáticas se consolidaram como a principal ameaça ao futuro das famílias brasileiras, superando outros gargalos históricos do país. É o que revela a pesquisa inédita “Termômetro do Brasil”, que aponta que 41% da população coloca a emergência ambiental no topo das suas preocupações geracionais.
Desenvolvido pelo LINA (Laboratório de Inteligência sobre Narrativas e Algoritmos), do Instituto Oyá, organização dedicada à promoção da justiça climática, da educação ambiental e da inovação social, o estudo ouviu 2 mil brasileiros em todas as regiões para mapear as conexões entre crise climática, integridade democrática e desinformação.
A pesquisa revela uma contradição estrutural no comportamento da opinião pública brasileira: o “paradoxo da urgência”. Se no horizonte geracional a emergência ambiental é apontada como o maior risco ao país (41%), no cotidiano ela perde tração e despenca para a 9ª posição na lista de preocupações imediatas, citada por apenas 14% dos entrevistados. No curto prazo, a pauta ambiental é sufocada pelas pressões socioeconômicas e de sobrevivência diária.

O ranking do presente é dominado por crime e violência (47%), corrupção (38%), pobreza e desigualdade (35%) e saúde (33%). Em contrapartida, quando projetam as ameaças ao futuro de suas famílias, os brasileiros colocam a crise climática acima de vulnerabilidades históricas como perda de emprego (32%), retrocesso democrático (32%), deterioração da saúde (31%) e escassez de alimentos (30%).
O levantamento desmistifica a ideia de desinteresse da população brasileira, já que 58% dos entrevistados afirmam ter convicção de que suas atitudes individuais impactam muito a natureza, e apenas 6% declaram não ter qualquer interesse em comportamentos sustentáveis. O estudo aponta, contudo, profundas assimetrias regionais: enquanto o Sul (64%) e o Sudeste (58%) lideram o percentual de cidadãos que acreditam no impacto de suas ações diárias, a região Norte registra o maior índice daqueles que percebem pouca capacidade de transformação individual (41%).
O recorte reflete como a escassez de infraestrutura e as urgências econômicas locais afetam a percepção de poder do cidadão sobre o território. Já no indicador de letramento ambiental, o maior nível de conhecimento declarado sobre o tema concentra-se no Sul (53%) e no Centro-Oeste (51%), seguidos por Sudeste e Norte, ambos com 46%.

O estudo demonstra que a conversão do interesse ambiental em hábitos cotidianos esbarra em limitações materiais objetivas. A falta de tempo (40%) e o acesso a produtos sustentáveis (37%) aparecem entre as principais barreiras socioeconômicas relatadas pela população, somadas ao déficit de orientação prática sobre como agir no dia a dia (29%).
No campo da mobilização, a opinião pública brasileira demonstra distanciamento de protestos de rua (33%) e de vinculações de caráter partidário (39%). O engajamento se consolida por meio de formatos digitais e pragmáticos, como o apoio a petições virtuais (21%) e o suporte direto a ONGs (14%), entidades que figuram no levantamento entre as instituições de maior credibilidade no país (45%).

Para Kamila Camilo, diretora executiva do Instituto Oyá, o levantamento desconstrói o mito do negacionismo e da apatia popular. “O brasileiro não está indiferente às mudanças climáticas. Na verdade, está sobrecarregado pelas urgências diárias de sobrevivência e paralisado por uma narrativa ambientalista abstrata ou catastrofista. A verdadeira virada de chave ocorre quando conectamos o clima à economia diária: qualidade do ar, saúde urbana, geração de emprego e renda no território. Nosso papel é criar pontes de inteligência e letramento para transformar essa ansiedade do futuro em ação concreta no presente”, afirma a executiva.
Instituto Oyá
O Instituto Oyá é uma organização dedicada à promoção da justiça climática, da educação ambiental e da inovação social. A instituição atua na formação de lideranças, no fortalecimento de comunidades e na construção de soluções que conectam tecnologia, impacto socioambiental e desenvolvimento sustentável.






