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Medo das mudanças climáticas afeta a forma como jovens enxergam o futuro

Eventos climáticos intensificam a ansiedade das novas gerações e causam incertezas sobre sua qualidade de vida no envelhecimento

Por Maby Ferreira

A imagem foi tirada de cima para baixo e mostra uma floresta com fumaça de fogo em cima das árvores
Nova geração e o medo do futuro com crises climáticas – Foto: Pexels
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A preocupação com o futuro do clima global tem ultrapassado o debate ambiental e alcançado a saúde mental de adolescentes e jovens adultos. Diante de notícias sobre ondas de calor, queimadas, enchentes e perda da biodiversidade, parte desta geração passa a lidar com sentimentos de medo, angústia e insegurança em relação aos próximos anos. Esse sofrimento, associado à percepção das mudanças climáticas e de suas consequências, é conhecido como “ecoansiedade” ou “ansiedade climática”.

Além das preocupações ambientais, questões como a escolha de profissão, construção de uma família e as condições de vida nas próximas décadas estão ganhando novos contornos diante da incerteza sobre a capacidade da sociedade de enfrentar esse obstáculo.

A Professora Andréia de Conto Garbin, psicóloga e docente do Departamento de Saúde Ambiental da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP explica o que é a ecoansiedade e como ela afeta a vida das pessoas que convivem com o problema. “A ecoansiedade é compreendida como medo crônico, angústia e culpa diante das mudanças climáticas e da degradação ambiental. Essa ansiedade engloba o sofrimento diante de perdas ambientais e das transformações que acontecem em territórios diversos.”

Medo do futuro e sensacionalismo

A juventude é uma fase marcada pela construção de projetos de vida e pela expectativa de oportunidades futuras. Nesse contexto, a possibilidade de enfrentar eventos climáticos cada vez mais intensos pode tornar mais difícil imaginar como serão as próximas décadas. “Os jovens estão perdendo uma perspectiva de transformação e mudanças da sociedade que sejam favoráveis ao desenvolvimento de projetos de vida. Essa ruptura de não pertencimento a um determinado lugar vai gerando angústia e sensação de impotência”, relata Andréia.  

Andréia de Conto Garbin – Foto: FSP-USP

A experiência direta de desastres ambientais também pode intensificar esse sofrimento. Enchentes, incêndios florestais, secas e ondas de calor não provocam apenas prejuízos materiais e riscos à saúde física: podem gerar insegurança, medo de novos episódios e preocupação com a própria família e comunidade. “Outras situações relacionadas a saúde mental, como álcool, uso de drogas, nós podemos ter também risco de suicídio relacionado ao calor extremo, perdas financeiras na agricultura devido a secas severas e até mesmo o luto, que decorre do desaparecimento real ou iminente das paisagens naturais e perdas efetivas materiais ou simbólicas relacionadas a mudanças climáticas”, afirma.

A forma como as mudanças climáticas são divulgadas pela mídia também pode influenciar a maneira como os jovens lidam com o problema. Notícias com abordagens sensacionalistas, que enfatizam cenários catastróficos e consequências irreversíveis sem contextualizar as informações ou apresentar perspectivas de enfrentamento, são uma delas. “A exposição frequente pode intensificar esse fenômeno porque as notícias e informações vão atuando no sentido de aumentar o medo e, desse modo, há uma resposta que pode se dar tanto nos aspectos psicossomáticos e comportamentais, mudando hábitos de vida dessas pessoas”.

Nesse contexto, a professora complementa que a divulgação responsável de informações, com base em evidências científicas e acompanhada de explicações sobre medidas de prevenção e possibilidades de ação coletiva, é fundamental para informar os jovens sem ampliar o sofrimento emocional.

Apoio psicológico

De acordo com a docente, o acompanhamento psicológico que visa evitar o agravamento de quadro é um elemento importante para manter a qualidade de vida e o bem-estar de quem vive com a ecoansiedade. “Se a pessoa apresenta ansiedade ou sofrimento, nós ficaremos com ela em atenção, sendo indicada a procura de um atendimento de saúde especializado para fazer uma avaliação e tomar as devidas medidas e tratamentos”. Andréia complementa, ainda, que é importante avaliar a história particular de quem sofre do problema e observar se ela não foi afetada por algum desastre, para que os profissionais da saúde façam o indicativo de qual o melhor acompanhamento para aquele indivíduo.

Para a psicóloga, a participação em iniciativas coletivas, como projetos ambientais, organizações juvenis e ações comunitárias, pode contribuir para transformar a sensação de impotência dos jovens em envolvimento social. “A ação coletiva, participação social e lutas por melhores condições envolve a autonomia, decisão e discussão sobre os rumos da sociedade. É possível que o futuro dos jovens tenha efeitos negativos, mas também é possível que a gente reconheça e tenha o vislumbre de participar de iniciativas de resistência e receba apoio comunitário para enfrentar situações adversas”. 

*Estagiária sob supervisão de Gabriel Soares

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